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Os equívocos de Luís Raposo no “Arte Capital”

Tenho por Luís Raposo uma elevada estima e reconheço o seu contributo para a museologia portuguesa (talvez deva dizer para a causa dos museus portugueses).

Num artigo recentemente publicado na Arte Capital  apresenta, quanto a mim dois equívocos e uma constatação, que se não me engano são motivadas pelo recente “procedimento concursal” para diretores de museus que a nova lei da autonomia dos museus prevê.

O primeiro equívoco é confundir museologia com museu. Se Museu é uma organização social, o estudo do que lá acontece (os seus fenómenos e relações) ou que lhe são específicos justificam a sua “ciência”, ou não são específicos e portanto serão uma “técnica” ou outra coisa que lhe queiram nomear. Como grandezas diferentes que são não são comparáveis.

Fazer isso é pensar que a medicina é igual ao hospital, a escola é a educação, ou a prisão é a justiça, ou que a biblioteca é um depósito de livros.

O segundo equívoco, tem a ver com a questão da relação com os valores dos objetos. Por princípio, os objetos dos museus sendo de elevado valor simbólico, não se constituem como objetos de mercado. Embora no passado tivesse havido museus onde se vendiam objetos (no século XIX era vulgar um museu ser um espaço comercial), há hoje um consenso bastante alargado sobre a natureza das organizações museológicas (sobretudo públicas) de que o seu objeto não prossegue o lucro. Trata-se portante dum fim social.

Mas essa condição não constitui nos dias de hoje um impedimento para pensar as organizações sociais a partir da sua sustentabilidade. E sobretudo pensar a sustentabilidade das organizações públicas.

Ora uma das discussões que hoje se tem sobre a questão da sustentabilidade das organizações sociais implica pensar para alem da dicotomia entre o publico e o privado (ou entre a obrigação do estado de financiar a cultura e a liberdade do empreendoismo cultural trocar bens simbólicos e produtores de bem-estar). Nem tudo é preto e branco, e sobretudo nem tudo tem que ser cinzento. Pode ser, por exemplo, colorido.

Há contudo uma constatação que não posso deixar de estar de acordo com Raposo. As várias formações que existem hoje nas universidades portuguesas são imperfeitas e estão longe de providenciar as necessidades de profissionais nos museus. Museu e Universidade são hoje dois “negócios” diferentes.

Para o bem e para o mal as universidades na sua formação pós-graduada são hoje espaços subordinadas a outras lógicas que não as do serviço público.

Se fosse jovem eu escolheria hoje ir para a “Bussinees School” de Carcavelos em vez da velhinha Faculdade de Letras no Campo Grande.

Estatística do emprego na Cultura (Um retrato imperfeito)

Saiu esta semana, depois dum longo período sem haver informações, uma informação estatística sobre o emprego no setor da cultura.  “NOTA ESTATÍSTICA 01/2020 EMPREGO NO SETOR CULTURAL, numa edição do Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais, do nosso MC:

A crise do COVID deixou um lastro que agora se começam a ser possível analisar. Provavelmente quando se tratou de saber o universo do “trabalhadores da cultura”, deve-se ter verificado qye não existia informação quantificável. Algum responsável terá solicitado informação, e alguém deve ter dado conta que não se sabia precisar a “dimensão do fenómeno” do emprego na cultura. Talvez seja esta aorigem da nota, ou talvez não.

É claro que este tipo de publicações, com base em dados estatísticos, sofrem dum atrasado de anos em relação à realidade. O processo de recolha de informação e tratamento é moroso e complexo. Também sabemos que os retratos que dão, correspondem às perguntas que são feitas e aos modos como fazemos.

Em Portugal, com a crise de 2008 e 2009 (e com a intervenção da Troika em 2011), muita da informação que era recolhida foi suprimida. Algumas instituições da cultura foram reorganizadas, foi extinto o OAC. Por outo lado, o INE manteve a sua política de recolha de dados, em linha com as normas europeias. Por essa razão a informação existe, mas nem sempre será trabalhada para a formulação de políticas públicas criadas a partir da observação do real. Em Portugal é norma este tipo de políticas serem concebidas em gabinetes, não raramente em conluio com “universidades (académicos) do regime”, onde são recrutados os “experts” dos gabinetes. Mas isso será tema para outro postal. O que vale agora acentuar é que em regra o que é conclusivo resulta mais do “desejo de moldar” a realidade ao modelo que existe na cabeça de cada um, do que uma “vontade de observar”.

Regressando à informação atual, segundo esta “Nota”, em Portugal, o perfil de um trabalhador na cultura “corresponde a um homem, detentor de um nível de ensino superior, em regime de trabalho por conta de outrem, desempenhando a sua atividade/profissão cultural a tempo completo e sendo esse o seu único emprego.”

Esta conclusão levanta-me muitas dúvidas. Mas se esses são os dados, não vamos duvidar deles. Mas, como todos sabemos, desde pelo menos os anos noventa do século passado, que o trabalho na cultura está em transformação. Não sou eu que o digo. São as Nações Unidas, através dos seus trabalhos no PNUD sobre a Economia Criativa. Hoje esse é trabalho feito em redes, numa lógica de prestação de serviços, muito criativo e inovador e sobretudo feminino.

Daí algumas das minhas dúvidas. Mas deste trabalho podem-se retirar outras informações interessantes. Por exemplo, apresenta o peso da força de trabalho no “setor” (3,8% na Europa e 3,3, % em Portugal.

Como os programas do PNUD já haviam identificado, este é um “setor” em crescimento (em Portugal terá crescido 23 % nos últimos 5 anos 2012-2018). Isto significa que o seu número rondara cerca de 160.000 pessoas.

Embora em termos médios Portugal esteja, em termos de emprego na cultura ao nível da Bulgária, Roménia e Eslováquia, estes são trabalhadores jovens, com formação superior, que trabalham por conta própria, dedicando à cultura cerca de 75 % do seu tempo de trabalho.

Ora este perfil (que resulta da análise dos dados apresentados) é contraditório com a conclusão do estudo, que no final se apresenta.

Não temos razões para ser optimistas. A dimensão da crise está visível nas ruas da cidade. Depois do desconfinamento basta andar pelos centros de comércio, pelos lugares centrais para entender a dimensão social do problema (ou olhar para o PRODATA ).

Mas como se isso não bastasse, e apesar da abertura dos museus no 18 de Maio, a cultura está longe de se estar em recuperação. Por todo o lado, os festivais continuam cancelados, os concertos condicionados, as salas de espectáculo vazias. Nas praças da cidade não se escutam canções nem se vêem trovadores. Os debates nos cafés são estéreis.

Nos últimos dias voltamos às discussões sobre o futebol (que note-se é o maior fenómeno cultural do nosso tempo, no nosso contexto eurocêntrico), onde se discute acesamente a questão do público nos estádios.

Com menor visibilidade mediática a cultura (nas políticas culturais públicas) enfrenta o mesmo problema. Uma questão essencial para resolver continua a ser a atenção sobre a função da cultura na sociedade, a questão do encontro criativo entre os humanos. Durante os últimos anos, os inquilinos tecnocratas do Palácio da Ajuda tem-se esforçado para desenvolver os serviços na cultura, privilegiando a “oferta” de bens culturais, aproveitando a “onda do turismo”. Dessas políticas resultam uma produção cultural dependente do “espetáculo”. Essa espetacularização continua em crise e não será com dinheiro lançado para cima que se resolverá o problema.

Ora perante as limitações aos espetáculos, seria útil dar visibilidade ao informal. Aos processos e modos de troca entre os humanos autónomos. Mas como essas trocas não são dados estatísticos, tardam a ser entendidas. Tarda a ser entendido como a poesia pode saír para a rua!

E os poetas! De que estão à espera para TOMAR CONTA DAS PRAÇAS ?

XXX- Educação e Autonomia

Tem-se vindo a falar, nas sequência da afirmações do responsável pela pasta da educação em Portugal, que se equaciona a possibilidade de no próximo ano letivo as escolas do país continuarem encerradas, e o chamado ensino continuar a ser feito à distância, isto é através do atual sistema implantado na crise do COVID19, por via das aulas por plataformas digitais.

É certo que a evolução tecnológica tem vindo a permitir uma maior latitude da intervenção das instituições de ensino. Herdeiros dos sistemas de planeamento centralizado, a escola, ou melhor a implementação da universalização do ensino, foi feita com base no território.

Semelhante ao sistemas quadricular, o espaço e a sua população é dividido em unidades, um território educativo, tutelado por uma escola. Como a educação é um direito universal e a escolaridade obrigatório, ao estado cabia desenvolver um ensino publico. Para isso organizou uma rede de equipamentos escolares. A Republica ainda ensaiou a construção de alguns equipamentos, mas será o Estado Novo, na década de 40 e 50 que iniciará o plano de construções escolares para o ensino primário. Escolas feitas a partir dum desenho do arquiteto Raul Lino, a cada região correspondia um tipo de escola. Imagens que ainda hoje surgem na paisagem urbana e rural.

O Liceu era então visto como uma escola urbana para as elites locais. Era um equipamento mais imponente, com uma marca mais intensa na cidade, por vezes rivalizando com as escolas comerciais e indústrias. Já no final do Estado Novo, a chamada reforma do Sistema Educativo de Veiga Simão, levou a uma reorganização do parque escolar, introduzindo um Ensino Preparatório, de dois anos, com uma rede própria. O Ensino universitário, exclusivamente para elites, situava-se nos grandes centros urbanos, instituindo a república as universidade de Lisboa e Porto, que passaram a ombrear com a centenária academia coimbrã, durante várias centúrias centro jesuíta

Com a aventura democrática, o sistema ampliou-se, quer em número de anos, de alunos e de territórios. Novos modelos foram construídos nas periferias das cidades, para satisfazer a procura e a mobilidade da população que nos anos sessenta setenta se torna urbana e industrial.

Recentemente, durante o consulado de Sócrates e da Maria de Lourdes Rodrigues, foram criados no território nacional, os Agrupamentos Escolares, cuja ideia foi “racionalizar” a gestão das escolas. Embora a intervenção destes governantes tenha ficado conhecida pela intervenção no “parque escolar” , um ambicioso plano de reabilitação de edifícios escolares, a reforma também formalizou as áreas de influência das escolas.

Todas estas intervenções no sistema educativo mantiveram a ligação duma população um território. Cada agrupamento deveria satisfazer as necessidades de acesso dos jovens nesse território. Nas escolas do primeiro ciclo mais pequenas, por isso mais numerosas, e mais próximas dos espaços residências, nas cidades; enquanto nos centros urbanos de média dimensão, no interior do país, se criaram megas complexos educativos, por contrapartida dos encerramentos das redes de escolas das aldeias, questão que durante muito tempo foi discutido a propósito da questão da desertificação.

Ora este modelo colapsou na crise do COVID 19. O sistema do ensino On Line que os substitui falhou também. Será fácil encontrar razões para tal. A incapacidade de planeamento e o desconhecimento das coisas básicas da relação educativa.

E como tudo falhou, prepara-se uma repetição para o próximo ano letivo. Não se trata de desconhecimento ou de incompetência. Trata-se duma agenda que tem um objetivo preciso. A rosão do ensino público está aí, perante a cumplicidade de todos.

E o que é que esta questão tem a ver com a cultura. É que a lógica vai ser a mesma. É certo que os museus abriram (ou estão a abrir). Uma boa parte por pressão das organizações de profissionais, de onde se destaca, neste caso concreto a APOM.

A cultura mantem-se em crise e as discussões dos atores dos museus continuam as velhas polémicas, cuja relevância talvez sejam duvidosas, criadas no tempo anterior ao COVID.

O que a situação me tem chamado a tenção, nesta comparação entre educação e cultura, para além da semelhança na inépcia dos governantes na ação, é que muito em breve os museus serão chamados a procurar justificar a sua existência perante a sociedade que está em mudança.

Estão pois perante o desafio de criar a sua autonomia.

XXVIII– Arte da Xávega

Quando um marinheiro aporta a um porto seguro, regressado das aventuras em mares tropicais, reencontra memórias. São duas linhas que se voltam a cruzar. Linha que tiveram dinâmicas diferentes, independentes, que seguiram linhas e lógicas próprias, reconstruindo as suas memórias.

Ao longo do dia de ontem, duas histórias relacionadas com estas velhas histórias, regressaram à memória.

A primeira foi vivida na Caparica, o esplendoroso areal às portas de Lisboa, que ao longo dos anos se foi transformados de aldeia de pescadores, para área balnear e área de dormitório da margem sul.

Ao longo da juventude foi porto seguro das férias de verão familiares. Com os primeiros calores de junho, passados a época dos santos populares vividos em Lisboa, uma velha camioneta de caixa aberta chegava pela manhã. Era dia de azáfama lá por casa. Aos poucos, colchões e roupas de cama emaladas e carregadas. Alguns tachos, panelas, pratos e talheres encaixotados, enviados para a casa de verão, alugas ao ano no início, depois ao mês. A família aí aportava a banhos até ao mês de setembro, com o chefe da família a fazer viagens diárias, de autocarro entre Cacilhas a Costa da Caparica, pois era época onde o luxo das férias ainda não era universal.

Havia rotinas que se mantinham, como a ida à praia da parte da manhã, a visita aos familiares com banca no mercado, para abastecimento de víveres. Da parte da tarde uma sesta e uma saída para a “mata”, onde se encontrava alguns amigos, se liam livros comprados na papelaria local (nessa altura andava a ler a coleção dos “Sete”. Mas os momentos que me eram mais agradáveis eram as visitas aos “Mouras”, uma velha família que veraneava numa casa em cima do areal. Implicava por isso levar os calções de banho e por aí ficávamos até ao por do sol.

O Por do sol na Caparica é um momento sagrado do dia. O momento em que o astro rei caia sobre o horizonte, inundando tudo de raios dourados e deixando o mar da cor da prata.

Também por essa hora caíam sobre o areal os pescadores da arte da Xávega. Com os seus barcos de peixes desenhados nas proas. Redes de tresmalho com saco. Sempre agasalhados para suportar a friagem que pela noite se faz sentir. E o final da safra, as sardinhas a saltarem, prateadas. Por vezes, suponho que seria aos sábados, comprávamos uma caixa ali na praia e levavam-se para casa e assavam-se nas brasas de carvão.

Nesse tempo não era grande admirador de sardinhas, mas gostava daquele ritual de praia e, com qualquer criança, de brincar sem horas na praia até que a escuridão tomasse conta das dunas.

Anos mais tarde, já jovem adulto, em visita à tia com banca no mercado, fui desafiado a “fazer qualquer coisas pela vida”, que é como essa minha velha tia, de nome Adelaide, casada com um pescador astuto que me recordo de olho azul e rosto tisnado pelo sol, dava ao “trabalho”.

Lá aceitei o desafio e durante uma safra, lá e dediquei à arte da xávega. Instalei-me na costa da Caparica. Ao final da tarde concentrávamo-nos no “bairro dos Pescadores” com uma merenda para aplacar a fome, caso ela viesse, pois antes não se saía de casa sem um bom prato de sopa “à pescador”. Depois íamos em cima duma camionete de carga até à Fonte da Telha, onde o mestre e o arrais tinham idos fazer a sesta pela tarde, para observar o mar, escolher o ponto de saía e marcar o lugar. Em regra o barco estava pelas imediações, pois cada “arte” tinha, por assim dizer, um dado território de pesca. Um direito que era sinalizado com a presença do arrais na praia, que dava a indicação da intenção da saír dum determinado ponto, onde a experiencia e a intuição indicavam maior probabilidade de extrair uma boa pescaria.

A “companha” era constituída por cerca de uma vintena de homens e mulheres que dividiam a pescaria em partes. O patraão e o arrais tinham uma parte pelo barco e pelas redes, outra parte para o trator e para a camioneta que levava o pessoal e o peixe para a lota. Cada remador tinha também uma parte. Quem ficava em terra a alar as redes tinha meias parte. Foi isso que me cabia de início, até ser considerado capaz de remar.

E assim passei vários meses. Ganhava-se conforme a pescaria. Uma vezes bastante, outras vezes, pouco mais dada do que trazer algum peixe para casa para o dia seguinte, o que também faziam parte do pagamento, em regras retirado das ultimas caixas, que não iam à lota.

E assim fui pescador de arte da xávega durante um ano!

XXVI – Museus e África (O Lugar de Portugal no Mundo X)

A África que conhecemos ou que ouvimos falar é hoje uma narrativa criada no nosso passado colonial, entretanto temperada como outras narrativas construídas nestes últimos de tempos pós-coloniais. Neste nosso olhar sobre um continente, confrontamo-nos hoje com as narrativas dos vário pensadores africanos. Pensadores que pensam a partir de África (dos seus lugares de cultura) e da diáspora africana. Acrescentemos ainda os pensadores que pensam África e as suas heranças a parti de outras latitudes, sobretudo americanas (do norte e do sul) e temos uma multiplicidade de narrativa e interlocutores.

Não é fácil manter um diálogo crítico com essa longa história onde diferentes matrizes de imaginários se confrontam. Não tenhamos ilusões sobre as diferenças entre pensar África a partir do Continente europeu ou do continente americano. Para além dessas experiencias há hoje uma experiencia própria africana de se pensar a partir das suas realidades

Por exemplo, quando lemos a apologia do “umbutu” como uma filosofia africana, raramente temos consciência que essa formalização não passa duma apropriação identitária executada pelo protestantismo cristão para integração das diferenças. Isso não explica a história mas ajuda a entender como as diferenças entre olhares são construídas. (Veja-se Macamo, Elísio (1999). Was ist Afrika? Geschichte und Kultursoziologie eine moderne Konstruktion “)

Quando falamos da decolonização dos museus, estamos a falar da inclusão da pluralidade de narrativas. De narrativas que retratem s diferenças. Ora nessa museologia decolonial as narrativas cronológicas tem que ser sujeitas a uma reflexão crítica. Isto é a uma reflexão a partir dos diversos pontos de vistas sobre a construção da colonialidade.

Por exemplo, o que foi a gesta heroica dos navegadores portugueses (mais propriamente ao serviço da corte joanina e manuelina), mesmo com o chamado contributo da ciência, tem, do outro lado, dos povos que sofreram a dominação colonial, uma leitura nada heroica, sendo pelo contrário de sofrimento e violência. Ou seja, manter as narrativas numa base cronológica conduz as narrativas para tensões e confrontos que são difíceis de resolver a contento de todos.

Para este tipo de narrativas, sobre relações entre culturas e sobre a diversidade será preferível adotar um outro ponto de escrita ou uma linha narrativa que trabalha sobre a sincronia, que procure ultrapassar a culpa e o perdão que as narrativas fundadas sobre a memória e o esquecimento implicam, recriando novos modos de sociabilidade fundados no respeito da dignidade das diferentes formas culturais.

É isso que se pretende com o Dia mundial para a Diversidade Cultural e o Desenvolvimento que amanhã se celebra. O que nos leva mais uma vez à questão da museologia em África. Sobretudo a museologia de língua portuguesa em contexto africano onde, apesar dos vários desenvolvimentos que tiveram durante a última década, permanece uma museologia que tem dado um muito fraco contributo para a valorização da experiencia museológica das comunidades africanas, dos e dos territórios onde se inserem.

A questão que deveríamos então colocar é saber como será possível desenvolver uma museologia inclusiva para a diversidade em África através duma narrativa em língua portuguesa em diálogo com as culturas locais.

Pois o tal desafio do Dia mundial da Diversidade Cultural para o Dialogo e desenvolvimento ( World Day for Cultural Diversity for Dialogue and Development (21 DE MAIO) https://en.unesco.org/commemorations/culturaldiversityday aponta-se como mais um ocasião para promover a cultura e destacar a importância de sua diversidade como agente de inclusão e mudança positiva.

Procura celebrar as múltiplas formas da cultura, das tangíveis e intangíveis, às indústrias criativas, a diversidade de expressões culturais e refletir sobre como elas contribuem para o diálogo, a compreensão mútua e os vetores sociais, ambientais e económicos de sustentabilidade. Aqui a palavra-chave é mudança ativa e não observação contemplativa de narrativas do passado.

XXVI – Museus de perguntas ou museus de estórias?

Ondem, dia 18 de Maio, foi o Dia Internacional dos Museus, em Portugal coincidente com a sua reabertura ao público. Em si é bom a reabertura deste tipo de equipamentos que são lugares de cultura. A cultura é um nutriente relevante de ser humano. Tão relevante como os alimentos que ingere, que são também eles elementos de cultura, tal como as formas de lazer e as formas de sociabilidade e relacionamento. Trata-se dum relevante reconhecimento da sua necessidade.

Como temos vindo a salientar, nestes dias internacionais verificam-se um conjunto de proclamações que procuram alinhar princípios. Poderei estar enganado mais muitas vezes percebe-se que há uma desconformidade entre as proclamações nestes dias e as práticas dos museus.

Em termos básicos, as questões lançadas, proclamações correspondem a questões problemas, lançados aos museus. Devem ser abordadas de forma crítica. Raramente vemos os museus problematizar essas questões. São poucos os museus que colocam questões lançam desafios, e muitos são os museus que contam estórias. Em regra estória já consolidadas e que correspondem a visões do munto a a convicções das aristocracias e elites de cada território.

Mas se essa é uma realidade herdada com a qual as diferentes instituições se foram consolidam ao longo dos diferentes tempos desses museus, será importante pensar como é que os seus profissionais podem começar a pensar uma museologia de perguntas. Em suma uma museologia crítica e autónoma!

XXIV – Museus Portugueses e Igualdade? (O Lugar de Portugal no Mundo VIII)

Nos dois portais anteriores, escritos a propósito do tema geral do lugar de Portugal no Mundo, analisamos o tema proposto para o Dia Internacional dos Museus que amanhã (dia 18 de Maio de celebra), a partir das questões da inclusão e diversidade.

Procuramos com essas análises trabalhar sobro os bloqueios dos discursos e narrativas em momentos de transição. Os museus, enquanto construções sociais, são casos que nos permitem caracterizar o que são e de que modo se ajustam às necessárias transformações narrativas e procedimentais.

Tenho defendido que eles já estão a acontecer e que estão acontecer fora dos museus. Não é necessário pensar a partir duma perspetiva negacionista: ou os museus mudam ou desaparecem! Estou convencido que eles, na maioria dos casos continuarão a existir nas suas atividades rotineiras e a albergar os seus profissionais dedicados. O que eu tenho vindo a defender é que é necessário pensar fora da caixa. Pensar ações que se procurem adequar aos novos mundos.

Quando em Maio de 68 os jovens insurgentes de Paris escreveram nas paredes do Louvre “Deixem o Sena atravessar o museu!”, anunciavam uma nova era. Uma era que questionava a sacralidade dos objetos recolhidos nos museus. E foi uma nova era. O musue passou a estar na comunidade, no território, desenvolveu uma Função Social, incorporou novas tecnologias, etc.

Mas o que se pretende com os museus como lugar de igualdade. O termo faz parte da famosa trilogia revolucionária setecentista (Liberdade, Igualdade e Fraternidade), ainda a hoje venerada em terras francesas (e não só!).

Se a liberdade ganhou foros de alforria em todo o mundo (com algumas exceções que confirmam a regra) a questão da igualdade é talvez mais controversa. A leitura da proclamação do ICOM (em http://icom-portugal.org/2019/12/19/dia-internacional-dos-museus-2020-museus-para-a-igualdade-diversidade-e-inclusao/ )

Também não ajuda. Dá uma certa ideia que que os museus como instituições confiáveis, se estão a por em bicos de pés a afirmar que: “-Aqui estamos nós! Somos importantes! Não se esqueçam que existimos! Reconhecemos a mudança e queremos ser atores dessa mudança!”

As proclamações são importantes como afirmação de princípios. Mas nos tempos atuais, exige-se que a cada enunciado, se associe uma prática (chamemos-lhe política).

Ora a questão da Igualdade está estabilizada em termos de direitos civis. Somos todos iguais perante a lei (onde se afirma o primado política dos direitos civis, ou Lei). A questão que hoje se coloca, é que tendo esse potencial quando nascemos, nem todos temos os mesmos percurso nem acesso aos bens comuns da humanidade. Nascemos num dado contexto, e é suposto, ao longo da vida de cada um, de acordo com as suas capacidades, contribuir para o nosso bem-estar e também dos outros. Esta última questão é importante, mas não vem ao caso desenvolver. Mesmo iguais, há portante diferençaas. Diferenças que advém de múltiplos fatores.

Ora se o que se pretende é resolver as desigualdades de acesso à certos bens e serviços comuns (cultura, educação, saúde, espaço-publico, bem-estar, etc), as melhores políticas (ações) são a promoção da Equidade.

Equidade é reconhecer a diferença dentro da igualdade. Por isso, por razões de promoção da equidade, se justificam politicas de descriminação positiva, para incluir, por exemplo, comunidades marginalizadas (afro descendentes, ciganos, LGBTTT, pobres, desempregados, sem-abrigo, remediados, descrimnados, doidos, prisioneiros de crimes civis, etc.).

Talvez fosse isso que o ICOM pretendesse valorizar. Mas parece-me que estou a ter um erro de paralaxe. Ao olhar para as várias celebrações que se preparam para o próximo dia 18, não vejo nada disto a ser abordado.

Talvez estes dias não sejam para mim e para o Museu da Educação e Diversidade. Provavelmente devia mudar de assunto.

XXIII-Museus Portugueses para a diversidade?

Dando continuidade à questão sobre a definição dos museus como espaço de narrativa inclusiva, no postal anterior, onde abordamos essa questão a partir dos museus nacionais portugueses, concluímos sobre a difícil inclusão da modernidade. Há alguma tensão entre o discurso nacional português, que procura a afirmação duma identidade construída socialmente, com profunda ligação com as narrativas históricas novecentistas (de afirmação das nacionalidades); e a aceitação de narrativas que assumam a pluralidade de vozes que existem no seu contexto.

As narrativas museológicas portuguesas são no essencial elitistas e unívocas (monovocais). O seu local de enunciação é palaciano, construído numa leitura ideológica da histórica, silenciando comunidades e memórias. É certo que há algumas exceções, que confiram as regras. Em Mértola, na continuidade de um trabalho que vem de David Lopes, Borges Coelho, assumido por Claudio Torres num contexto de uma vida dedicada à diversidade cultural, afirmou-se alguma pluralidade de vozes. Poucas influências irradiaram, embora Torres tenha um escola (arqueológica) com vários trabalhos a sul do Tejo.

Notamos também uma concentração destes equipamentos, qualificados como nacionais, na cidade capital. Resultado do tempo dos museus, é certo. Mas também na cidade de Lisboa, como já noutro sítio notamos (The Role of cultural Diversity for Sustenaible Cities, 2018, p 144) , se verifica uma concentração de “equipamentos” no seu “centro” histórico e turístico. Estamos a falar dos museus nacionais e dos museus municipais. Ao contrário do que sucede, por exemplo, com as bibliotecas ou centros culturais, os bairros onde habitam os lisboetas, não tem museus. Não á museus em Chelas, no Bairro do Padre Cruz, na Musgueira, no Vale de Alcântara, etc.

Não há memórias dos lisboetas que construíram a cidade, não há trabalho sobre o trabalho na cidade, sobre a vida na cidade. Não há trabalho de inclusão nem sobre a diversidade sobre cidade, a partir dos seus museus (Há mais uma vez algumas excepções que confirmam a regra no Museu de Etnologia). Não é que o trabalho museológico que agora se encontra subordinado à EGEAC seja mau. A questão é que continua a predominar uma estratégia voltada para os turistas e paras as narrativas elitistas, do pitoresco e das coleções de outros tempos, com as quais se vai convivendo com estéticas modernas.

Inclusão e Diversidade são hoje conceitos redondos. Politicamente corretos, não são questionados de forma crítica pelos profissionais dos museus. O que quer dizer inclusão. Etimologicamente significa colocar dentro de. Como conceito de política pública, significa trazer as comunidades marginais (periféricas) para o centro das políticas públicas. Como a ideia do DIM 2020 do ICOM é inclusão na diversidade, implicaria dar voz à pluralidade dessas comunidades.

E como se trabalha museologicamente com essas comunidades marginalizadas para as incluir na sua diversidade?

XXII – Museus Portugueses inclusivos ?(O Lugar de Portugal no Mundo VI)

Mais do que definir o que é ou não é museu, talvez importe discutir os processos patrimoniais que acontecem nos museus portugueses. Por hipótese, a caracterização dos museus portugueses, corresponderão a um retrato ou a uma narrativa patrimonial.

Para evitar a questão do que consideramos ou não museus, não porque não seja relevante, mas porque representará um universo muito extenso, cuja responsabilidade de conhecer deveria caber a um Instituto ou Observatório (que não em Portugal não existem como ferramenta de política pública), olhamos para os ”Museus Nacionais”.

O Instituto Português de Museus foi uma figura administrativa da Administração Publica Portuguesa criado em 1991 até 2011, quando a lógica da “austeridade” levou à concentração de vários departamentos numa Direção Geral do Património. Essa estrutura administrava diretamente os museus nacionais e o processo da chamada Rede Portuguesa de Museus. O Observatório das Atividades Culturais, criado em 1996, numa parceria entre uma universidade e o Ministério da Cultura, foi extinto também em 2011, e desenvolveu vários trabalhos de investigação sobre atividades culturais, entre os quais os museus.

Malgrado estas entidades terem existido e estudado os museus, as diversas transformações da administração pública levaram, no momento atual a um deficiente conhecimento da realidade.  Traduzindo numa linguagem mais corrente. Se queremos conhecer o que é o “panorama museológico” português, no tempo presente, ou adamos no terreno ou conhecemos por aproximação, por via de inquéritos ou conversas de corredor. Confesso que durante os anos em que tive a oportunidade de ler trabalhos de investigação, vários foram os candidatos que conduziram estes inquéritos a museus. Em regra conduziam a resultados redundantes, pois quase sempre as questões colocadas apenas permitiam conhecer uma realidade “administrativa”.

É uma tradição “regulamentária” que se tem vindo a instalar no país, mal absorvida a tradição europeias, que se miscigenou sobre a prévia estutrutura administrativa autoritária herdade do estado novo. As ações só existem se estiverem previstas nos regulamentos ou nos projetos. Se não se enquadram nas normas, não são considerados ou são negadas. A negação de realidade é um estado de alma!

Na falta de melhor olhemos então para esse universo dos museus e palácio nacionais. A listagem é conhecida. São 24 “equipamentos” (veja aqui http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/dgpc/) que ostentam a categoria “nacional”. Esperam-se que sejam representativos da “nação”.

Como podemos ver, estes museus são todos eles museus criados a partir duma ideia de cultura como “elite” ou como “erudição”. De popular encontramos apenas o museu de arte popular, resquícios da exposição do mundo português, e da ideia de portugalidade que se pretendeu criar a partir do folclore. Ou seja observa o popular a partir dum lugar de elite.

Uma outra questão é a sua distribuição pelo território. Dos 24 equipamentos, 13 estão concentrados em Lisboa (cidade), aos quais podemos juntar mais 3 na sua área metropolitana. No Porto 1, em Coimbra 2, ao que se juntam alguns em cidades médias, incluindo o recém-criado Museu de Peniche, criado como resultado de um movimento social contra a gentrificção do espaço, e que se constitui como o “museu do regime”. (não vem ao caso mas a sua narrativa é idêntica a um museu de Lisboa).

É uma distribuição por antigos palácios, casas senhoriais, com temas eruditos, excetuando-se os casos referidos, não se vislumbrando neles as questões da diversidade e da inclusão social. No Algarve e nas Ilhas, por exemplo não há museus nacionais. No Alentejo 1, na Beira Interior 1 e em Trás-os-Montes também não há (há alguns casos em que os equipamentos são administrados por um regime fundacional).

Poderíamos ainda introduzir uma outa variável, que é o tempo de constituição. Herdeiros duma tradição perservacionista do século XIX, os museus mantem-se razoavelmente estáticos no tempo. São herdeiros do seu tempo. Nessa leitura, a museologia portuguesa ainda está na “era das revoluções”. Tarda-se em entrar na modernidade.

Há aqui um paradoxo que dificilmente os museus herdeiros do “tempo dos museus” poderão ultrapassar. Estes museus são nacionais porque se constituem como uma narrativa de todos, ou são nacionais porque são em termos simbólicos “únicos”? E são inclusivos? São inclusivos da Diversidade?

Estas questões talvez pudessem estar em cima da mesa no DIM 2020?