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Trabalhar com a Diversidade Cultural:

O livro “Raça e História” do antropólogo françês Clause Levi-Strauss, escrito em 1952 por encomenda da UNESCO defende o argumento de que a proteção da diversidade cultural não deveria preocupar-se com a manutenção ou conservação do seu estado. A História é uma manifestão duma dada diversidade. Portanto não é um dado resultado dessa história que deveria ser preservado, mas sim o processo  que permite que a história continue a manifestar-se. Que o processo de manifestão cultural se possa continuar a desenvolver.

Isso pressupõe que é necessário pensar sobre a forma como as culturas dialogam e não pensar na valorização de uma dada história, pensada como destino. Nesse sentido a diversidade não é um bem que se deve preservar, mas sim um  recurso a valorizar. O entendimento da cultura e da diversidade cultural como processo.

Referencia: “Relatório Mundial da UNESCO “Investir na diversidede cultural e no diálogo intercultural”, 2016

MANIFESTO ESTUDANTES SOCIOMUSEOLOGIA UNIVERSIDADE LUSÓFONA

Manifesto foi lido na sua versão inglesa na reunião regional do CECA, o Comité do ICOM sobre Educação e Ação Cultural que se realizou em Lisboa, na Universidade Lusófona,  nos passados dias 26 e 27 de Abril.

 

MANIFESTO

ESTUDANTES SOCIOMUSEOLOGIA UNIVERSIDADE LUSÓFONA

Os princípios de uma museologia que realmente represente uma memória popular devem atender às premissas de processos participativos. A função dos museus tem de incorporar o âmbito da educação e desenvolver atividades pedagógicas e políticas de empoderamento de sujeitos locais que são também parte considerável do património dos lugares. Um museu tem de se abrir ao diálogo para preservar, transformar e comunicar valores relacionados com a vida da população local; esse museu é aquele que disponibiliza as ferramentas de comunicação (e até a tecnologia) que promovem o  acesso e a  possibilidade de participação da comunidade. 

O museu apolítico não existe. O museu neutral não existe. O museu faz parte de um tempo e de um espaço e é fruto das relações interpessoais. Toda a narrativa, seja ela expositiva ou de outra natureza, é produto de um recorte. Logo, não é matéria inerte, o museu é orgânico, rizomático, vivo. 

Como elemento vivo, o museu deve reagir e envolver-se nos temas do mundo e, também, na vida das pessoas que fazem parte daquele museu, daquele lugar. Assim como deve representar os símbolos e objetos que tenham valor histórico e afetivo para a comunidade. 
A génese dos museus é parcial, segmentária. Ela conta a narrativa hegemônica e elitista. Poderíamos, talvez, recontar a história dos museus à sua proveniência de coleções privadas e de gabinetes de curiosidades apanágio de certos indivíduos privilegiados, endinheirados, excêntricos;  gabinetes que são depois empolados para museus com discursos oficiais, nacionais e imperiais, usados como símbolo, como marcas de poder e reafirmação de valores do poder. 

Mas hoje as experiências museais querem-se livres, deixam-se reescrever, questionam-se, incluem-se nos dilemas do tempo presente. Porque o museu pertence a todos os que afinal habitam aquela cidade, aquela vila, aquele bairro, aquela rua, aquele país, o mundo! O museu pode ser o lugar onde as pessoas encontram algo da sua história, mas é sobretudo o lugar onde as pessoas se encontram com os seus e com as suas próprias estórias, em revelações de identidade num lugar de achado.  

Uma renovada museologia, engajada, plena de gente e de vida(s), é possível, todos os dias, em novos casos que proliferam, resilientes, ora em museus locais ora em museus nacionais que desejam contar as outras histórias, com outros protagonistas, aquelas que nunca foram contadas, onde há um sem fim de gente que importa. E que se importa em contar a sua versão da realidade, a sua mirada. Muitas vezes desde a perspectiva de quem esteve as margens das grandes decisões do poder e que por essas não se sente representado. A história desta gente é a da vida de todos os amanheceres e anoiteceres que testemunham a história dos lugares.  

 Museus interventivos precisam-se, museus que rejeitem o campo da neutralidade e da 
 ambivalência social: museus de toda a gente e para toda a  gente, sem medo de participar, sem pejo em tomar posição.  

Novos museus são precisos, sem muros, mesclados com os assuntos locais e com os temas globais, museus multivocais, ilimitados ou pelo menos de fronteiras tão amplas e difusas que não se possam policiar: museus de liberdade e de ação. Desejam-se novos museus com consciência de si mesmos que ousem idealizar futuros, cenários imaginados, novas hipóteses de  sociedade. Desejam-se museus que gritem a vozes que geralmente são caladas pelos próprios museus de consenso. Desejam-se museus de conflito e dissenso. 

A discussão do CECA_ICOM não pode ser apenas sobre conceitos a usar ou não. A discussão deve abordar claramente debate do papel e da função dos museus na sociedade. E esta discussão não queremos nos isentar de propô-la. 

Em baixo versão em Castelhano e Inglês

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