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Suão

Suão ou sueste é vento quente que sopra das areias do grande deserto do Sahara. Anuncia-se através de uma nuvem de poeira que se levanta dos lados nascente, encapelando o mar, na costa algarvia. Ondas quentes de três a cinco metros que se arremessam com fúria sobre o areal. Simultaneamente uma humidade pegajosa toma conta do corpo.

Nos dias de sueste, encobertos e encaracolados há pouco para se fazer. Saborear e observar as mudanças. Esperar por melhores dias para a praia. Consertar algumas coisas que ficaram para trás. E talvez provar um bom vinho Merlot.

O suão transporta uma massa de ar quente e seca que atrai chuva. No sul o povo diz os seguintes provérbios sobre o vento suão:

“O vento suão cria palha e pão”.

“Vento suão, chuva na mão: de inverno sim, de verão não”

XXVII – “Algo vai mal no Reino da Dinamarca” (O Lugar dos Museus de Portugal no Mundo XI)

Celebra-se hoje o Dia Internacional da Diversidade Cultural para o Dialogo e Desenvolvimento ( World Day for Cultural Diversity for Dialogue and Development .

“Algo vai mal no Reino da Dinamarca” escreveu William Shakespeare, em Hamlet no fim do seculo XVI. (no original: «Something is rotten in the state of Denmark. Repostava então o personagem ao estado do Reino: a corrupção, a traição, as vinganças e os assassínios que aconteciam então nessa península do noroeste da Europa).

Anos mais tarde, o poeta O’Neill escreveu, “No Reino da Dinamarca”. O que haverá de comum entre as duas obras? Nada. Apenas que nesse poema escrito em 1958 se escreveu “Um adeus português”, a história dum desencontro entre amores.

A 18 de maio celebrou-se o DIM 2020 com o tema Museu para a Igualdade: Inclusão e Diversidade. Estranho que hoje, no “mundo dos museus” ninguém se tenha lembrado de evocar a efeméride. Algo está mal no Reino da Dinamarca!

Como resolver a natureza aristocrática inerente aos museus portugueses para que – para além das proclamações solenes sobre os princípios genéricos gerados em processo convencionais, desenvolvem uma prática de diálogo e de inovação com a sociedade?

XXVI – Museus e África (O Lugar de Portugal no Mundo X)

A África que conhecemos ou que ouvimos falar é hoje uma narrativa criada no nosso passado colonial, entretanto temperada como outras narrativas construídas nestes últimos de tempos pós-coloniais. Neste nosso olhar sobre um continente, confrontamo-nos hoje com as narrativas dos vário pensadores africanos. Pensadores que pensam a partir de África (dos seus lugares de cultura) e da diáspora africana. Acrescentemos ainda os pensadores que pensam África e as suas heranças a parti de outras latitudes, sobretudo americanas (do norte e do sul) e temos uma multiplicidade de narrativa e interlocutores.

Não é fácil manter um diálogo crítico com essa longa história onde diferentes matrizes de imaginários se confrontam. Não tenhamos ilusões sobre as diferenças entre pensar África a partir do Continente europeu ou do continente americano. Para além dessas experiencias há hoje uma experiencia própria africana de se pensar a partir das suas realidades

Por exemplo, quando lemos a apologia do “umbutu” como uma filosofia africana, raramente temos consciência que essa formalização não passa duma apropriação identitária executada pelo protestantismo cristão para integração das diferenças. Isso não explica a história mas ajuda a entender como as diferenças entre olhares são construídas. (Veja-se Macamo, Elísio (1999). Was ist Afrika? Geschichte und Kultursoziologie eine moderne Konstruktion “)

Quando falamos da decolonização dos museus, estamos a falar da inclusão da pluralidade de narrativas. De narrativas que retratem s diferenças. Ora nessa museologia decolonial as narrativas cronológicas tem que ser sujeitas a uma reflexão crítica. Isto é a uma reflexão a partir dos diversos pontos de vistas sobre a construção da colonialidade.

Por exemplo, o que foi a gesta heroica dos navegadores portugueses (mais propriamente ao serviço da corte joanina e manuelina), mesmo com o chamado contributo da ciência, tem, do outro lado, dos povos que sofreram a dominação colonial, uma leitura nada heroica, sendo pelo contrário de sofrimento e violência. Ou seja, manter as narrativas numa base cronológica conduz as narrativas para tensões e confrontos que são difíceis de resolver a contento de todos.

Para este tipo de narrativas, sobre relações entre culturas e sobre a diversidade será preferível adotar um outro ponto de escrita ou uma linha narrativa que trabalha sobre a sincronia, que procure ultrapassar a culpa e o perdão que as narrativas fundadas sobre a memória e o esquecimento implicam, recriando novos modos de sociabilidade fundados no respeito da dignidade das diferentes formas culturais.

É isso que se pretende com o Dia mundial para a Diversidade Cultural e o Desenvolvimento que amanhã se celebra. O que nos leva mais uma vez à questão da museologia em África. Sobretudo a museologia de língua portuguesa em contexto africano onde, apesar dos vários desenvolvimentos que tiveram durante a última década, permanece uma museologia que tem dado um muito fraco contributo para a valorização da experiencia museológica das comunidades africanas, dos e dos territórios onde se inserem.

A questão que deveríamos então colocar é saber como será possível desenvolver uma museologia inclusiva para a diversidade em África através duma narrativa em língua portuguesa em diálogo com as culturas locais.

Pois o tal desafio do Dia mundial da Diversidade Cultural para o Dialogo e desenvolvimento ( World Day for Cultural Diversity for Dialogue and Development (21 DE MAIO) https://en.unesco.org/commemorations/culturaldiversityday aponta-se como mais um ocasião para promover a cultura e destacar a importância de sua diversidade como agente de inclusão e mudança positiva.

Procura celebrar as múltiplas formas da cultura, das tangíveis e intangíveis, às indústrias criativas, a diversidade de expressões culturais e refletir sobre como elas contribuem para o diálogo, a compreensão mútua e os vetores sociais, ambientais e económicos de sustentabilidade. Aqui a palavra-chave é mudança ativa e não observação contemplativa de narrativas do passado.

Desconfinamento dos Museus e Lugares patrimoniais

A hora da verdade aproxima-se. Dentro de alguns dias os museus e lugares patrimoniais irão reabri as portas ao público. Simbolicamente foi escolhido o dia 18 de Maio, dias Internacional dos Museus. Talvez seja de fazer deste dia um dia de festa para pensar o futuro. E ainda que seja 2ª feira, dia tradicional de descanso, talvez valha a pena celebrar o trabalho da cultura e negociar com os sindicatos as necessárias compensações laborais (par aqueles que as mantiveram) e mostrar solidariedade com todos aqueles que viram os seus rendimentos afetados.

Com elas virão os novos desafios de enfrentar a pandemia com s novas exigências sanitárias para garantir a possível segurança dos funcionários dos equipamentos e dos seus visitantes.

Recentemente a APOM publicou uma Carta que endereçou para o Ministério da Cultura com um conjunto de questões que apresentam alguma pertinência.

A saber:

A mais relevante delas todas será o uso de equipamentos de proteção individual e dos equipamentos. Se o uso das mascaras, como todos já entendemos, passará a ser um adereço pessoal, mas haverá que acautelar o seu uso por parte dos visitantes (será necessário tornar obrigatório o seu uso dentro do espaço do museu. Os potnos de contato entre publico e funcionários tem que ser repensados, assim como bares, lojas e instalações sanitárias (que necessitaram de uma maior higienização). Ou seja mais recursos alocados. Estarão os museus nacionais preparados para isso. E como sabemos, aquilo que for recomendação para os museus nacionais será muito provavelmente seguido pelos municípios.

Faltam duas semanas para isso. Haverá que pensar ainda que todos os trabalhadores deverão ser alvo de ações de sensibilização para a nova situação. Não há pois muito tempo.

As outras questões que a APOM levanta, são também pertinentes no imediato e no médio prazo.

No imediato:

  1. Alguns museus, por exemplo, tem ou virão a ter problemas com fornecedores de água e energia (sem receitas ou de portas fechadas, os orçamentos não sobrevivem).
  2. Alguns museus, talvez mais municipais e alguns nacionais, terão também problemas com os espaços. Dificilmente as velhas áreas expositivas permitirão as novas regras de segurança. Pois há que fazer estas avaliações, entre espaços que podem ser abertos e outros que devem permanecer de acesso condicionado ou interdito.
  3. Embora no curto prazo seja previsível que não haja visitas de grupos escolares e os grupos de turista sejam ainda escassos, vale a pena disponibilizar algumas linhas de orientação sobre espaços de visitação e, eventualmente fazer uma “task force” para ajudar os museus na adaptação desta nova realidade, que é a circulação dos visitantes em segurança pelos espaço e o uso de equipamentos (por exemplo todos os equipamentos interativos).

Se as questões de curso prazo são relevantes, as de médio prazo, como por exemplo a continuidade dos projetos implica uma reavaliação da sua relevância, conformidade com a nova situação. É sabido que são vários os interesses em jogo e aí se vai jogar a capacidade de liderança do setor cultural.

Finalmente o desafio que tem vindo a ser enunciado, o da digitalização. Há que fazer o balanço dessas experiências e trocar ideias para recolher ensinamentos.

Como sempre ganhará a liderança dos processos quem neles se envolver. Aqui o desafio para os nossos obsoletos serviços de cultura é o de saber se existe capacidade de resposta para este tipo de serviços à comunidade cultural.

A APOM, ao saber enunciar e reunir um conjunto de questões relevante parece estar bem posicionada para ser um parceiro relevante neste processo.

Será que os seus apelos serão ouvidos?

Poética da autonomia VII – Redundâncias

Interrompemos a séria de análise sobre a realidade internacional com um postal sobre o recém relatório do NEMO, uma rede europeia de organizações de museus, sobre o impacto da crise nos museus. Temos vindo a abordar a questão do impacto nas organizações culturais, e mais à frente retomaremos essa reflexão quando abordamos a questão dos “serviços culturais”, questão que ainda é cedo para reunir todas as bases de reflexão. Ante temos que completar um quadro de reflexão sobre mudanças que estão a acontecer no mundo contemporâneo, para tentar entender que tipo de respostas as organizações necessitam de dar, em função da transformação tecnológica e do trabalho.

Até aqui, na análise do que genericamente se poderá chamar como processo de globalização, que é um processo de complexificação das relações internacionais, dos Estados, da economias e das sociedades, verificamos que as relações multipolares colapsaram face à entropia face às novas configurações dos novos poderes (americanos, chineses, russos, europeus) e de algumas configurações regionais (recomposição de forças no médio oriente, com o colapso da Síria e o volte-face da Turquia para leste, reemergência do Irão em vários cenários face a Arábia Saudita, novas tensões entre India e Paquistão, recomposições na América do Sul, etc.).

Para além da crescente entropia, como vimos no Caso da Guiné-Bissau que gera impasses, as relações internacionais, e as suas instituições deixam de agir de forma linear, a assumem configurações imperfeitas, resultantes da acontecimentos e processo. As legitimidades advém de emergência dos poderes em contexto.

Significa isto, que ao invés das relações entre Estado e Economias se pautarem por uma conjunto de regras instituídas, regulares e constantes, com base no Direito (internacional), emergem, na arena internacional situações pontuais, casuística que se reconfiguram como poderes exíguos, inconstantes e em permanente mutação. Essas reconfigurações dos atores e organizações internacionais apresentam-se como uma realidade fluída em mutação. Como tal obriga a analisar essas redundâncias com instrumentos adequados. Isto é a previsibilidade transforma-se em instabilidade.

Poética da autonomia V – Potencias

Falamos no postal anterior, a propósito duma leitura atualizada do real num mundo dinâmico e complexo. Salientamos em particular os processos de transformação do sistema mundo que após o final da guerra-fria (mundo bipolar) se tinha reconfigurado em multipolar. Colocamos como hipótese de análise que estava a emergir um mundo onde os atores exploram fratura e clivagens. Essas fratura surgem como reconfigurações das ordens internacionais.

Tomemos como exemplo a situação da Guiné-Bissau. A atual crise do CIVID-19 retirou das atenções do mundo a questão da eleição presidencial, sobre a qual falamos nos postais da série “Crónica da Guiné”. Após o atual impasse, surge hoje a noticia que a Comunidade Internacional, (via secretário-geral das Nações Unidas, CPLP e UE) solicita o reconhecimento e investidura formal do presidente eleito Umaro Sissoco, após deliberação da CEDAO (Comissão de Estados da África Ocidental). Esta instituição supervisiona desde há 10 anos os acordos de paz neste país da CPLP. O presidente eleito, assumiu a sua investidura no final de fevereiro, numa atitude de afirmação e confrontação de poder com a Assembleia Nacional Popular (a cujo presidente e local cabe a formalização dessa investidura),e com o Supremo Tribunal de Justiça, onde corre uma reclamação do candidato derrotado.

Independentemente das forças e legitimidades do poder em disputa, interessa aqui salientar a reconfiguração dos mecanismos de poder na arena internacional. Ao invés da legitimidade dada pelo “primado da lei”, esta situação implica uma reconfiguração da relação entre um estado “frágil” (onde o modelo institucional parece não ter capacidade de resolver os seus conflitos internos) e as instituições internacionais, que perante uma dada situação legitimam o “golpe palaciano” que o novo presidente resolveu usar para afirmar e assumir o poder.

Ou seja o processo ao invés de possibilitar uma análise de factos, comprovados ou não (o recurso ao tribunal é feito com base numa suspeita de fraude), a comunidade internacional privilegia a “real politique” ainda que ela resulta duma contradição com os esforços (de normalização) institucional que procuraram implementar ao longo dos últimos 10 anos.

Uma atitude que potencia uma leitura sobre o falhanço dos processos de regulação internacional e dos modos de legitimar o poder-

Memórias dum Mundo Perdido

Será a cultura relevante para a resolução da crise do COVID 19? Com esta questão procuramos interrogar a completa ausência da cultura nos discursos sobre a crise.

É certo que há muita atividade cultura nas plataformas digitais. Artistas, cantores, leitores, ultrapassam o isolamento e o encerramento dos equipamentos, criando espetáculos virtuais. Museus disponibilizam visitas virtuais. Bibliotecas ampliam a oferta digital.

Procura-se com isso, não só ultrapassar o isolamento, como também criar alternativas aos rendimentos perdidos.

O Ministério da Cultura lança linhas de emergência para profissionais da cultura. Financiar projetos que estavam agendados para evitar a massiva perda de rendimentos.

A serem verdade, e não tenho razões para duvidar delas (informação dada pela Lusa em 30 de março), várias são as organizações do setor da cultura que alertam para uma situação trágica. Segundo os dados do Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, 33 % das programações foram canceladas, e 98 % dos trabalhares da área estão ficaram em situação de desempegos ou estão afetados por uma substancial perda de rendimentos.

Se juntarmos a esse dados o encerramento dos museus, das livrarias, das bibliotecas, das salas de exposição, etc. organizações culturais que tradicionalmente são lugares de profissionais liberais, não é difícil de pensar que estamos perante uma profunda tragédia com uma maciça perda de rendimentos dos profissionais, das organizações e de toda a cadeia produtiva do setor criativo.

E sabemos que a situação se irá manter por mais algumas semanas. Portanto será que a questão se resolverá com um “Programa de emergência? (como nos propõe o nosso colega Pedro Cardoso Pereira).

Can the museum be defined?

In recent days museologists have been agitated. In about 100 words or just over 600 characters, the ICOM General Council has proposed to the museological community to revise the current concept, which except in error dates back to 1985.
About this concept has been published several critical has been made which we published yesterday, that we can be review on the ICOM website at: https://icom.museum/en/activities/standards-guidelines/museum-definition/

Some of these critical referecnes ara related to the perceived absence of a more explicit reference to the Educational Function of Museums and a certain dilution of its organizational figure as an institution.

Several national and working committees have been publicly requesting the postponement of the voting scheduled for early September in Kyoto at the ICOM General Assembly.

Regardless of the various arguments mobilized, which often confuse elements of social processes with social theory, this is a Kafkian discussion.

The concept of museums has been changing over time. The concept has not always been the same, and it will not always be the same. There is a certain normal nature to change when definitions fail to respond to realities. It is natural that thought wants to capture the real, translating it, delimiting it, trying to condition its scope.

We also know that between the being or not being Museum, various symbolic powers in society are swallowed.

The touch stone is this a factual question. Like any social institution, processes are defined by what they do (and is efficiency ) and not by their names. When we are sick we go to the hospital to get healthy; when we want to learn we go to school; When we file a crime complaint we go to the police station. When we go social conflit we went in the tribunal.

When we go to the museum what will we do?
This is a difficult question to answer, but it may help to understand some pointlessness of a debate about a supposedly distinctive essentiality of the organization that this debate seeks to capture, delimit, and sterilize.
What we find in museums is the heritage. What we do with heritage is the art of making museums. They are places of life, of creation and of encounter. Maybe three words were enough…

Maconde Wood Sculpture in Mozambique

Makonde Art and Political History of Mozambique (1950-1974) by Lia Laranjeira
Published by publisher Intermeios, in Maputo in 2018 I discovered in the old Minerva Bookstore in Maputo, is a publication of the doctoral thesis in the postgraduate program of Social History of the University of São Paulo.

It is an interesting book in that it makes an extensive and critical reading of the Maconde sculpture phenomenon in Mozambique. It approaches researches made in colonial times from the works of the Nampula Museum and the Campaigns of the Anthropologist Jorge Dias in the sixties.

It also addresses the social issue of sculpture producers, in their relationship with the social history of the group of macondes, in their transits of confrontation and resistance to the colonial state. It also addresses the Macao activism in the context of the war of liberation from Tanzania.

In the end, he approaches the symbolic question of the use of the Maconde sculpture as an identity element of free Mozambique.

See Tambem Leite, Pedro Pereira (2015 ) A Escultura Maconde e a Ideia de Moçambicanidade