Arquivo da categoria: Educação patrimonial

Casa da Memória e Oficina

Território e ComunidadeExposição permanente

A Casa da Memória de Guimarães é um centro de interpretação e conhecimento que dá a conhecer, através da exposição Território e Comunidade, várias perspetivas da memória de um lugar.

No espaço expositivo da Casa da Memória poderá encontrar imagens, histórias, documentos e objetos que permitem conhecer diferentes aspetos da comunidade vimaranense através de um largo arco temporal: da Pré-História à Fundação da Nacionalidade, passando pelas Sociedades Rurais e Festividades e Industrialização do Vale do Ave, até à Contemporaneidade. Há muitas formas de visitar a Casa da Memória, tantas quantos os seus visitantes, mas a sua programação reforça-o com convites regulares para visitas guiadas ou oficinas que multiplicam os olhares que podemos ter sobre este espaço.

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Guia da Exposição Download 

Programação Cultural II: Entre festas ou alta cultura?

Questionamos no último postal sobre o que são, ou deverão ser as competências de programação cultural dos profissionais de museus e quem são ou quem tem estas competências em Portugal?

São questões complexas e difíceis de responder. Para isso teríamos que fazer o exercício de saber o que é e o que faz um “programador cultural”, o tema que a conferência da “ Acesso Cultura” procura debater na sua reunião anual, e como não poderia deixar de ser, seriamos obrigados a delimitar essa pergunta ao “museu” enquanto categoria de equipamento cultural.

A complexidade inicia-se na própria definição da sua profissão. Programador cultural é uma função de direção ou uma função técnica?

Na atual Classificação Nacional de Profissões, de 2010 (https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui=107961853&PUBLICACOESmodo=2&xlang=pt) não contempla esta profissão. A atividade de programador está associada às Tecnologias de Informação e Comunicação, ligado as questões das redes tecnológicas, web e multimédia. Funções técnicas. Essa mesma distinção, entre funções técnicas e de direção parece transparecer na distinção entre os técnicos de nível intermédio (classe 34.33 Técnicos de galerias, bibliotecas, arquivos e museus) e a Função de Direção (1349.1 Director de bibliotecas, arquivos, museus, galerias de arte e monumentos nacionais). Deixemos de lado a distinção entre este tipo de equipamento cultural e a de “centro cultural” que classe 1431.0 “Director e gerente dos centros desportivos, recreativos e culturais pode fazer entrar nesta equação.

Numa leitura rápida, atendendo a que a realidade é sempre mais rica que as categorias com os legisladores procuraram capturar a realidade, poderíamos ser tentados a considerar que a programação cultural será uma função técnica que se distingue da de direção.

Mas olhando para a realidade dos programadores essa imagem está longe de corresponder à realidade. Na verdade, a profissionalização desta atividade de programador cultural está bastante associada a funções de direção. Talvez, aqui o termo mais adequado seja a capacidade de “liderança cultural”, que implica, a possibilidade de dar forma a projetos culturais.

Valerá a pena olhar para a história desta profissão em Portugal, ou para o modo como os programadores culturais se olham para o que fazem. E desde que o fazem.

De uma maneira geral sempre existiu na sociedade a “programação cultural”. As velhinhas comissões de festas, que organizam os bailaricos nas aldeias ou nos bairros, a “fábrica” que organiza as procissões e demais festas sacra e profanas do “espírito Santo” faziam, ao seu modo “um programa de festas”. Existe, na linguagem simbólica a expressão “qual é o programa das festas?”, que interroga a sequencia das ações preformativas, ou o guião do que vais acontecer.Os cinemas, os teatros, as editoras (de discos e de livros) faziam programação. Até os museus faziam as suas programações. Haverá talvez fazer uma distinção entre plano e programa. Planificar é estender no tempo um conjunto de intenções, enquanto programar, por definição tem uma escala mais pequena e um maior rigor. Fará ainda algum sentido pensar sobre a função de “gestor cultural”, outra categoria que, vindo do universo empresarial, se tem vindo a acomodar no universo da cultura, sobretudo na perspetiva das organizações lucrativas (mas não só).

Esta distinção é um mero preciosismo, mas que nas instituições públicas e privadas implica levar em linha da conta. Nesse sentido o plano implica uma visão mais geral e uma afetação orçamental. O programa traduz a aplicação desse programa com rigor e alocando recursos, humanos, materiais e financeiros, no espaço e no tempo, e quase sempre gerir a sua operação, resolvendo os problemas e constrangimentos.

Observando esta atividade, deste angulo, verifica-se que ela é uma questão essencialmente técnica, mas que implica, na sua execução tomadas de decisões operacionais. E a decisão implica, legitimidade na ação, capacidade e clarividência na resolução do problema em tempo útil.

Onde está então a questão da liderança, da mediação e da participação, ou ainda do trabalho critico sobre questões contemporâneas que os profissionais fazem questão de apresentar como atributos da sua atividade?

Talvez algumas delas permitem compreender as questões da gestão empresarial, enquanto atividade holística de gestão das atividades culturais como um “serviço” à comunidade.

Nessa perspetiva vale a penas pensar que essa atividade de “programação cultural” na sua perspetiva de serviço à sociedade (serviço económico), sempre existiu nas chamadas “indústrias culturais”.

Como é que a atividade da “programação cultural” surge nas políticas públicas da cultura, como uma função organizacional? Entendo aqui políticas públicas como a concretização dos imperativos constitucionais de assegurar a fruição e a criação cultural, o acesso aos bens patrimoniais e à concretização da cidadania. Ou seja, se na esfera dos interesses privados, das empresas, essa “programação” já existia, como é que ela começa a ser aplicada a organizações culturais?

A programação cultural é hoje uma atividade estabilizada nos teatros e nas galerias de arte. Terá sido provavelmente por via dessas organizações que a profissão se foi insinuando como profissão. Em Portugal, basta-nos olhar para o caso dos Teatros, Opera e Fundações de divulgação cultural (Gulbenkian, CulturGest, Serralves) para perceber que alguns dos nossos programadores culturais vêm dessa esfera. Mas quem conheça a tradição anglo-saxónica sabe, que muitos mais do que a tradição francesa, a figura do programador cultural, é amplamente reconhecida no campo das organizações culturais que atuam na comunidade. Será também por efeito de contágio destes ambientes culturais que ela chega até nós na época europeia?

O que vale a pena reter, neste domínio, é que com o advento da democracia e da Europa a distinção entre popular e alta cultura se começa a diluir, com as organizações populares e os municípios (que emergem como organizações produtoras de cultura e festividades) a recorrerem ao que podemos já nomear como programadores culturais para as suas atividade; e com as organizações eruditas a propor quadros orgânico a programadores culturais, com a proposta de diversificarem os seus públicos na perspetiva da participação da comunidade.

Os exemplos que conhecemos, da entrada da função de programador cultural (nos teatros, óperas, fundações e galerias), são quase todas de organizações elitistas, que desenvolvem numa primeira fase uma programação mais erudita. Com a democratização, e perante o imperativo constitucional e pelo exemplo dos paradigmas participativos desenvolvidos no pós-guerra na Europa do Norte, e que chegam a Portugal após a implementação da democracia, começam a irradiar para o domínio das organizações populares. A função de programador ganhou espaço na sociedade. Ter-se atrasado a academia na constatação dessa alteração na atividade dos profissionais da cultura? Voltaremos a esta questão

Programação Cultural: Entre festas ou alta cultura?

A nossa querida Maria Vlachou e a sua associação “Acesso Cultura” anuncia a promoção dum debate sobre a questão da programação cultural, onde interroga sobre o conjunto de competências que estes profissionais devem desempenhar

A questão ganha uma inusitada atualidade, num momento que que vão a concursos, nacionais e locais vários cargos de Direção de Museus” concretizando o previsto no Regime Jurídico da Autonomia e Gestão dos Museus (DL 78/2019 de 5 de Junho) . . Entre vários critérios, o “programa cultural” apresentado pelos concorrentes será um dos elementos que mais peso terá na seleção. O mesmo sucedeu aliás com o caso Rita Rato, vencedora do concurso para a direção do Museu do Aljube em Lisboa, onde o juri, alegadamente, terá valorizado o projeto apresentado, em detrimento das eventuais desvantagens curriculares, demonstradas por outros candidatos.

Não faltaram várias vozes, entre académicos, comentadores e associações de profissionais, nomeadamente da APOM e do ICOM, que levantaram a questão da adequação da formação para o cargo de direção. De acordo com a lei-quadro dos museus (lei 47/2004 de 19 de Agosto), os museus devem dispor dum diretor. Por norma, na administração pública portuguesa, os cargos de direção são desempenhados por quem tenha como habilitação mínima, o grau de Licenciatura. Por tradição, contudo, considera-se que esse cargo deve ser desempenhado por quem tenha uma formação pós-graduada na área da museologia ou do património.

As razões dessa posição advém de duas ordens de fatores: De um lado, da ausência de tradição das universidades portuguesas em oferecerem uma formação ao nível do primeiro ciclo na área dos museus. É certo que há uma oferta (reduzida) de licenciaturas em “património cultural” e “conservação e restauro”, mas a museologia ou Estudos de Museus só surge no 2º e 3º ciclo universitários; e de outro lado da tradição de provimento dos cargos de Direção de Museu, que até aos inícios dos anos de oitenta do século passado, incidia nos profissionais habilitados com a categoria de “Conservador”. Ora esta categoria profissional, que tinha uma carreira específica na administração pública portuguesa, era conferida por uma formação específica feita no Museu da Arte Antiga / Instituto de Alta Cultura – o curso de conservador, que tinha uma duração de 2 anos, com aulas no seu primeiro ano, e um estágio no ano seguinte, com apresentação de relatório, que segundo me recordo era apreciado por um juri interno.

Ora esses cursos de conservadores, que são portanto formação pós-graduada transitaram para a academia em meados dos anos oitenta. Isso justificará uma parte da discussão sobre quem é e quem pode ser diretor de museu. Em grande medida, nessa discussão percebe-se que exista uma preocupação “corporativa” e “elitista” quando os “outros” acedem à profissão. Entende-se com alguma clareza as razão do “não é nada contra a pessoa”, mas “não se entende como é que pessoas com formação” (mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos) foram preteridas por uma jovem licenciada “sem experiencia” no mundo dos museus.

E com isso regressamos à questão da programação cultural, e á pertinência da sua discussão em contexto dos Museus. O que é a programação cultural nos museus.

Não sei se o seminário da Aceso cultura tratará da questão dos museus de forma específica, mas pela análise preliminar do seu programa e pelos conferencistas anunciados, é bem possível que a questão seja apresentada.

E isso levanta a questão da distinção entre programação cultural como profissão (técnica) da programação em museus (também como a tal competência que será valorizada no concurso para os cargos de Direção de Museu).

Num artigo publicado no jornal Público a 12 de junho do corrente, e  referenciado na bibliografia deste evento Paulo Pires, programador cultural da dinâmica município de Loulé, reflete sobre a profissão de programador. A palavra chave é a mediação. O programador, segundo Pires, deverá ser “eclético, contemporâneo e competente (com qualidade) ” e, numa escrita sem espinhas deve ser uma “a programação evidencie uma lógica interna própria, adopte uma escuta activa e seja comprometida com o território e a comunidade, permita articulações fortes e a construção de possibilidades de interpretação e conhecimento por parte do seus destinatários, contribua para o fortalecimento (e reinvenção) de uma identidade, se revele implicada com o seu tempo sem descurar a memória, atinja patamares estimulantes de relevância e qualidade, fomente a criação de novos públicos e a consolidação dos já habituais (incrementando ainda transferências de franjas de público, mormente de esferas mais massificadas para “lugares” mais segmentados) – emane harmonia, ritmo, respiração” (ob cit)

Serão estas as competências necessárias para um diretor de museu? Quais são as universidades, na área da museologia e património que oferecem uma formação pós-graduada que inclua nos currículos “escuta ativa da comunidade”, o compromisso com o “território e a comunidade”, para o reconhecimento da sua diversidade cultural e tnha “harmonia, ritmo e respiração”. Quem são, entre nós, os profissionais de museus com estas competências?

Voltaremos à questão noutro postal?

Poética da autonomia XVII – O Lugar de Portugal no Mundo

Face aos realinhamentos mundiais no início do século XXI qual serão as dinâmicas do novo mundo pós-covid 19. Já abordamos algumas tendências destas dinâmicas que caracterizamos como fluídas e instáveis, caóticas e imprevisíveis. No entanto há que ter em atenção as dinâmicas e interesses dos diversos atores.

Uma das razões da crescente complexidade nas relações internacionais tem a ver com a multiplicidade de atores. Cada vez mais, e com uma tendência crescente aos estados somam-se interesses de organizações internacionais, de empresas corporativas, de empresas regionais, e de diversas outras formas de associação de atores.

Essa reflexão será relevante para olhar para o posicionamento português de europeu. E isto porque a Europa permanece num impasse. Após a saída do Grã-Bretanha e da Crise do COVID19 ainda não decorreu tempo suficiente para entender de forma clara como se irão dar os realinhamentos interno da União. Isto é se o ciclo de tendência para a desagregação persiste, ou se é possível inverter esse ciclo e ganhar alguma coesão como entidade política significativa.

E isto afeta particularmente Portugal, pois o seu ciclo de alianças estratégicas encontra-se numa situação que obriga a repensar ou a reinventar o futuro, ou talvez não.

Vejamos: a instalação de democracia em 1974, passado o chamado período revolucionário, a as principais linhas estratégicas da ação externa do país mantiveram-se mas com alteração de dinâmicas e relevâncias. Recordemos que os três vetores – África de Língua Portuguesa, a relação transatlântica e a relação com a Europa ocidental se mantiveram, mas com uma clara inversão de prioridades. A África Lusófona perde protagonismo face à integração europeia que rapidamente se torna a relação dominante, integrando inclusive a relação Atlântica, subordinadas que foram as políticas de defesa na Europa à Aliança Atlântica.

Neste último caso, a partir da era Obama, sensivelmente após a crise 2008, verifica-se que os Estados Unidos se voltam para o oriente, desinvestindo na relação de defesa europeia, que na era Trump, se assume como um encargo exclusivamente europeu. Apesar da relação privilegiadas que se manteve com os EUA por via da Base Militar dos Açores, verifica-se uma crescente imprevisibilidade neste eixo estratégico, a que se se soma, a saída do Reino Unido da União Europeia, parceiro com que Portugal mais afinidades estratégicas mantinha no espaço europeu.

A África Lusófona, apesar da criação da CPLP no início do milénio, e do progressivo alargamento de espaços de cooperação por via da Integração Europeia, acaba por ser o vetor estratégico que maiores debilidades acumula. Basta olhar para dois fenómenos convergentes dessa perda de influências. Por um lado a união das instituições de cooperação económica com a instituição de promoção da língua, e a delegação da ação de cooperação para sociedade civil

Poética da autonomia XVI – Um mundo chinês

É indubitável que este século XXI está a ser um mundo Chinês. Lembro-me com nostalgia dum volume da coleção “Rumos do Mundo, editada pela Cosmos, sob a Direção de Vitorino Magalhães Godinho, que disponibilizava em língua portuguesa a coleção homónima francesa, com o título O Mundo Chinês. Publicado em 2 volumes, o primeiro ainda antes de 1974. O meu para era “assinante” da obra, e como tal recebia em casa os diferentes volumes, a troco dum pagamento mensal. A obra ficava assim mais em conta. Lembro-me que nessa altura folhei com espanto o primeiro volume (porque o segundo, editado em 1975 dei-lhe pouca atenção), onde falava da ascensão da formação do Império do Meio, como mais tarde ficou conhecida a China.

Nunca fui um entusiasta das questões asiáticas. Não simpatizei, nem de perto nem de longe com as derivas maoistas. Ainda jovem, através da leitura de Marco Polo, acompanhei as aventuras da grande rota da seda, queentão ligava o oriente ao ocidente. Depois acompanhei de longe a revolução cultural chinesa, a morte do grande timoneiro, a ascensão e queda do “bando dos quatro”, a consolidação da política um regime dois sistemas, com que habilmente Deng Chiaoping acerta os “rumos do tempo chinês”. Mas lembro-me de nessas paginas me ter deslumbrado com as porcelanas e a história dessa china, em grande parte exótica.

Mais tarde, na adolescência, os restaurantes chineses de Lisboa eram baratos e exóticos, adequados para as tertúlias de amigos, que permitiam, com os seus pequenos pratos, as inevitáveis partilhas, que permitiam desfrutar de sabores, que na altura pensávamos exóticos. Ainda de aventurei em avençar com as confeções de arroz xau-xau e shop-suei na cozinha materna, sem grande sucesso.

Ainda por essa altura o oriente ia seduzindo uma geração, seja pela sua filosofia taoista (o encontro das forças do Yng e Yang), seja pela abertura aos negócios, com que uma parte dos novos empresários tentavam investir os parcos capitais acumulados na então adesão à CEE.

Em quarenta e poucos anos o Império do Meio renova o seu esplendor perdido e impõe-se nas relações internacionais com uma maneira de fazer política e muito própria. Cumpriram-se assim os vaticínios de que este século seria um século chinês. Já o é, e ainda vamos na década de 20. A influência chinesa estende-se a todo o mundo. Conhecemos as intenções chinesas de fazer a “nova rota da seda”. O famoso superavit chinês vai comprando dívidas e empresas (amarrando estados e posicionando-se nos negócios)

Avoluma-se alguns escritos sobre as ameaças da China, das suas pretensões a um papel de influência no mundo atual. Sabemos, por exemplo, que nesta pandemia, a China foi-se insinuando, não se se de forma insidiosa ou não, nos vários governos europeus, oferecendo aqui ajuda, acolá poio. Uma diplomacia ágil, face aos passos titubeantes da Europa que falhou a primeira resposta coletiva. E os sinais do perigo de dissolução, os avisos não param.

Se necessitamos de reinventar a humanidade, temos que reinventar o lugar da Europa e o Lugar da cultura.

Poética da autonomia VIII – Experiências

Dando continuidade às condições de atividade das relações internacionais, campo de análise de profundas mudanças das relações entre povos, verificamos que no tempo atual, os processos de planeamento foram substituídos pela inconstância.

Isto é ao invés da preparação de planos cuidados e pensados para situações estáveis ou de transformação duma dada situação diagnosticada, as ações dos atores são hoje aleatórias, inconstantes e imprevisíveis.

Na maioria dos casos, as decisões são tomadas na altura, face a situações consumadas, e de acordo com os interesses imediatos e particulares de cada ator.

Estamos pois num tempo de experimentalismo e inovação.

Poética da autonomia V – Potencias

Falamos no postal anterior, a propósito duma leitura atualizada do real num mundo dinâmico e complexo. Salientamos em particular os processos de transformação do sistema mundo que após o final da guerra-fria (mundo bipolar) se tinha reconfigurado em multipolar. Colocamos como hipótese de análise que estava a emergir um mundo onde os atores exploram fratura e clivagens. Essas fratura surgem como reconfigurações das ordens internacionais.

Tomemos como exemplo a situação da Guiné-Bissau. A atual crise do CIVID-19 retirou das atenções do mundo a questão da eleição presidencial, sobre a qual falamos nos postais da série “Crónica da Guiné”. Após o atual impasse, surge hoje a noticia que a Comunidade Internacional, (via secretário-geral das Nações Unidas, CPLP e UE) solicita o reconhecimento e investidura formal do presidente eleito Umaro Sissoco, após deliberação da CEDAO (Comissão de Estados da África Ocidental). Esta instituição supervisiona desde há 10 anos os acordos de paz neste país da CPLP. O presidente eleito, assumiu a sua investidura no final de fevereiro, numa atitude de afirmação e confrontação de poder com a Assembleia Nacional Popular (a cujo presidente e local cabe a formalização dessa investidura),e com o Supremo Tribunal de Justiça, onde corre uma reclamação do candidato derrotado.

Independentemente das forças e legitimidades do poder em disputa, interessa aqui salientar a reconfiguração dos mecanismos de poder na arena internacional. Ao invés da legitimidade dada pelo “primado da lei”, esta situação implica uma reconfiguração da relação entre um estado “frágil” (onde o modelo institucional parece não ter capacidade de resolver os seus conflitos internos) e as instituições internacionais, que perante uma dada situação legitimam o “golpe palaciano” que o novo presidente resolveu usar para afirmar e assumir o poder.

Ou seja o processo ao invés de possibilitar uma análise de factos, comprovados ou não (o recurso ao tribunal é feito com base numa suspeita de fraude), a comunidade internacional privilegia a “real politique” ainda que ela resulta duma contradição com os esforços (de normalização) institucional que procuraram implementar ao longo dos últimos 10 anos.

Uma atitude que potencia uma leitura sobre o falhanço dos processos de regulação internacional e dos modos de legitimar o poder-

Poética da autonomia III –Potestas e Autorictas

Os princípios da Pedagogia Critica para a autonomia expressam-se muitas vezes como uma confrontação com a autoridade autocrática, exaltando o processo de conhecimento crítico. Isto é afirmam-se contra o exercício do poder autocrático, que se manifesta através da exibição ou afirmação da força, sem mediação da deliberação ou participação dos interessados, propondo, como alternativa, o exercício do debate em assembleia.

A pedagogia crítica para autonomia contesta o saber pelo saber, afirmado pela autoridade escolástica, contrapondo à descoberta do saber pela experiencia, pela pratica e pela tentativa erro. Há nesta pedagogia uma critica á autoridade. Vale a pena examinar esta questão mais profundamente.

A distinção ente “potestas” e “autorictas” é antiga. Os romanos fizeram bem essa distinção quando na sua atribulada história se confrontam o exercício do poder com o exercício da autoridade. Não basta deter o poder, é também necessária que seja reconhecida essa autoridade.

O vocábulo poder, que tem origem no vocábulo latino “potestas” (poder ou competência) demonstra um estado ou condição institucional. Já a palavra autoridade tem raz no verbo latino “augere”, que tem um significado genérico de (fazer crescer, o criar). Tem portante uma raz comum a autor, aquele que faz e expressa um processo. A autoridade, para os antigos romanos expressa o exercício do poder, o exemplo ou o modelo (de excelência ou capacidade de referenciação)

Weber, nos seus estudos sobre a sociologia do poder (A Política como Vicação, 1919), distinguiu três esferas de dominação na sociedade (poder): o poder tradicional (que vem das linhagens) o poder simbólico ou legal (que advém da esferas de legitimação) e o poder carismático, que advém do “carisma”. A chamada “burocracia”, um termo também introduzido na análise de Weber, é o conjunto de procedimentos com base nas normas e documentos escritos, produzidos pela dominação legal.

Regressando portanto à pedagogia para a autonomia, é fácil de entender, para além dos debates teóricos sobre o exercício do poder na sociedade (política), que há um princípio que nega a afirmação dum saber pela sua enunciação, sem que ele, num processo pedagógico, passe pelo processo de debate construtivo de ideias. O saber como uma relação criadora.

Poética da autonomia II –Utopia

Construir a mudança através da educação autónoma e críticas. Talvez seja uma Utopia, nos termos do célebre livro de Tomás Moro, um “Não-Lugar”. Como contrapartida para o desacerto sobre o conhecimento atual sobre um mundo em transição, confrontando as metodologias que procuram regularidades, assumimos a busca da transitoriedade. Um pensamento nómada.

Procuramos uma ilha metafórica, construída como um lugar ideal, que não existe, nem nuca existirá. O projeto, como intenção está sempre condenado à sua incompletude.

Será um arquiteto, que projeta um edifício ou uma cidade um pensador de futuros? Um construtor de futuros

Como em todos os percursos há que dar o primeiro passo. Um passo que determina as direções. Mais à frente teremos tempo de corrigir o ritmo e se o quisermos o rumo.

Vamos partir numa navegação à bolina, questionando o mundo das artes e da cultura. Os ventos de abril são favoráveis à exploração.