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Para uma poética do pensamento para a autonomia

O pensamento crítico é o pensamento reflexivo que garante a autonomia do ser. A capacidade de pensar críticamente implica identificar e aplicar analogías. É um processo cognitivo de inferência, que passa de um objeto particular para outro objeto particular, valorizando os elementos comuns. É usado como técnica de resolução de problemas.

Fases do Pensamento Crítico

  • O processo de produção dum pensamento crítico inicia-se com a identificação do que se sabe e o que falta saber. Esta primeira fase implica recolher informação relevante sobre o que já sabemos, como sabemos e identificar o que é necessários saber. Fase do diagnóstico
  • Organizar ideias e criar lógicas. É necessário entender o que é necessário entender, porque é necessário e para que é necessário. É um momento em que é necessário olhar paras as questões de diferentes perspetivas, entender os diferentes sentidos. Fase do questionamento
  • Identificar as falhas e as ausências. Ao olhar para o que falta saber e par o que se sabe de diferentes formas, torna-se ais fácil entender o que falta e o que falha no pensamento sobre esse objeto. Fase da revelação ou insight
  • O momento em que tendo-se apropriado do que existe e do que falta, implica fazer uma nova síntese. Rever o que foi feito e Integrar o novo, Simplificar através de analogia pode ser um exercício que favorece a descoberta. Fase da Síntese
  • Atingimos fase poética, onde através da analogia se procura formas puras, simples e esclarecedoras que dão estabilidade o problema (resolução). Fase da Poética.

O pensamento crítico é a base da pedagogia para a autonomia. Está no centro da atividade educativa libertadora e é o objeto da atividade educativa.

Pensar com autonomia é saber avaliar as ideias e os argumentos de acordo com as razões e evidências apresentadas, com suporte nos sistemas de valores. Está longe de ser um exercício inato ao processo cognitivo, necessita de ser treinado e aplicado de forma constante. Constitui a base da vivência em sociedade.

Uma sociedade que pratica o espírito crítico, no seu limite, não necessitaria de instituições reguladoras da ação social. As diferentes instituições do Estado confrontam se contudo com a necessidade de colocar limites à ação do pensamento crítico, com base numa definição do bem-comum, esquecendo-se que esse bem comum é fluido e instável.

Este é um dos paradoxos da escola. Ao mesmo tempo que deve praticar o exercício do pensamento crítico com uma das suas finalidades, enquanto agente da ação do estado, atua limitando o exercício desse pensamento crítico. Aplica a disciplina e o autoritarismo como modelo de regulação.

Um segundo paradoxo, contudo, coloca-se hoje às escolas. Numa era de transição societal, onde o fluxo de informação flui por diferentes canais, a escola deixou de ser a única instância de legitimação do saber. O pensamento crítico é um instrumento educativo que está disponível para encontrar um rumo nos fluxos de informação. No entanto, ele não é passível de apropriação pelas escolas pois inverte os princípios de autoridade onde está fundada e onde assente a legitimidade que lhe dá estabilidade.

Voz do Operário

Documentário de Miguel Costa na RTP sobre o Passado e o Presente da Sociedade “Voz do Operário” RTP 2 01 de Outubro de 2020 (12:00)

Para ver sobre o Projeto Eucativo da Voz : Aqui

https://www.rtp.pt/play/p6252/a-voz-do-operario

<a href="http://&lt;!– wp:paragraph –> <p>https://www.vozoperario.pt/</p&gt; <!– /wp:paragraph –> <!– wp:paragraph –> <p> </p> Uma escola na Cidade

Museus dum outro tempo

O grupo de projeto Museus no Futuro, apressadamente concluiu o seu relatório preliminar. Nomeados pela RCM 35/2019 de 18 de Fevereiro, no âmbito das guerras internas dento do Ministério da Cultura, onde os vários atores que se estão a posicionar para o banquete dos fundos europeus, produziram um documento deplorável, do ponto de vista técnico e teórico.

Mostra bem o nível de alienação da museologia portuguesa. Falta lhe o sentido da realidade. Do país, das políticas públicas para a cultura. Falta lhe também conhecimento relevante sobre as dinâmicas da museologia, os seus desafios teórico, e capacidade e análise critica sobre os modelos das organizações sociais.

Terá provavelmente como destino as bolorentas gavetas da Ajuda. Mais um objeto inútil! Que os historiadores encontrarão numas memórias perdidas numa banheira!

Falta lhe sentido do real porque o que são hoje os museus (e o que serão amanhã os museus do futuro) dependerá, entre outras de duas variáveis de curto prazo, que aqui estão ausentes de reflexão. O comportamento da pandemia e o jogo de forças na negociação do próximo programa quadro de apoio comunitário (2021-2026).

Provavelmente a “encomenda” terá sido para habilitar os “decisores” para programa exequível e para os museus, palácio e monumentos, (MPM). Um programa que será negociado em Bruxelas que gerará um bolo a partilhar internamente pelo aparelho de estado nas políticas socialistas. Estes nossos confrades foram ao seu caixote de ideias não concretizadas e, mudando uma vírgula, modernizando uma palavra, requentaram o prato.

Como tem sido norma na governação socialista, o Estado assume a sua vocação centralista e concentra os “incentivos” a distribuir pela clientela, no jogo de negociação. Quem controlar o “bolo” ganha poder de hegemonia no “mundo dos museus”. A vocação centralizadora deste documento, – de tornar os museus todos iguais, duma memória elitista, não deixa grandes margens para dúvidas. Este documento propõe a criação dum “elefante branco” na Ajuda para controlar os Museus, com estes nossos amigos a espreitarem a sua oportunidade de o “gerir”. Como é óbvio as atuais políticas públicas na área da cultura, mesmo as formuladas pela atual gestão socialista, já não comportam este modelo. A palavra de ordem, com o novo diretor é “fazer negócio”, ou dito por palavras mais atuais, rentabilizar o património.

A Pandemia desencadeada pelo COVID 19, ainda longe do fim e dum conhecimento das suas sequelas, acrescentou a incerteza do futuro. Não haverá, provavelmente, o mesmo tipo de fluxos turísticos. E face a incerteza, os iluminados tiraram da cartola as receitas do passado, de melhorar as relações com os fundos turísticos. Como se fez em Lisboa, debaixo da tutela da EGEAC. Só isso basta para ver que não tem futuro. Nem o modelo lisboeta é replicável no país, nem o país é todo turismo, como é óbvio para alguém que conheça a realidade. E isso se os fluxos turístico voltarem com a mesma dinâmica e intensidade (coisa que também não é óbvia.

Mas há mais exemplos: Dizem que fizeram uma revisão de literatura: Então onde esta a Recomendação da UNESCO de 2015. O estado português não e signatário? Não se comprometeu com o documento. Assinou distraído a recomendação? E quem tem interesse em esconder a discussão que está a acontecer no “mundo dos museus” sobre a ideia do museu e sobre o que é o museu. Não a compreendem é o que é. E como a avestruz, escondem a cabeça debaixo das palavras redondas e vazias.

Outra chapelada. Onde esta a cooperação no âmbito do Ibermuseus. É certo que aparece uma referência sobre a cooperação na formação. Mas não existe no documento uma visão estratégica sobre uma linha da política externa da cultura com um relevante a área regional de grande dinamismo na museologia contemporânea. Acresce que temos com esta área, não só laços históricos, como relevantes comunidades de emigrantes, para quem a cultura portuguesa continua a ser uma ideia da aldeia branca a cantar o Verde-gaio e a dançar fandango. Ausência de ideias portanto! Onde está a cooperação com África. O MNE/CAMÕES não fazia parte do grupo? Não deu contributos? Não tem uma rede no mundo?

Procura caracterizar aquilo que é os museus, palácio e monumentos. Uma categoria que aqui tem como propósito a alargar a influência do antigo Instituto dos Museus a outros equipamentos culturais, muitos deles na dependência das autarquias ou serviços da administração descentralizada. Em contra corrente da visão administrativa da repartição dos fundos comunitários. Pois para quem sabe da poda, os projetos para terem bonificações tem que ser fora da Região de Lisboa e Porto. Claro que a ideia é centralizar em Lisboa os serviços especializados, para manter a influência e a hegemonia.

Na comissão estava a representação da Ciência com os seus Museus Ciência Viva. Não deixa de ser curioso que os inquéritos deixaram escapar a rede de Ciência Viva. Aqui a ciência é vista como uma financiador, um fornecedor de recursos (financeiros e humanos). Não devem conhecer a transformação que as universidades estão a enfrentar. Mas, avançando, por que razão os parques naturais e Ambientais estão ausentes? Talvez fosse útil ligar as categorias do Ministério da Cultura com as do Ministério do Ambiente!

Voltando às categorias e caracterização dos equipamentos (os MPM). O que se apresenta são, mais uma vez dados estatísticos. Entradas nos equipamentos, receitas, públicos. Uma boa parte deles estão disponíveis nas Estatísticas da cultura. Fazem uma leitura simples dos dados, sem um aprofundamento crítico e qualitativo. É certo que foram feita algumas entrevistas com os diretores de museus. (cujos lugares estão agora a concurso). Tudo sobre passado. Nada disso abre uma porta sobre o que será o futuro. E para quem conhece o universo, salta à vista que á lacunas muito significativas. Do alto da Ajuda e difícil observar o país como realidade.

Porquê? Porque falta conhecimento e experiência relevante! Confunde-se a organização social com as políticas públicas. Resultado não bate a bota com a perdigota! Quando se fala de dinâmica social, propõe-se organização burocrática. Tenta-se capturar o real e enxerta-lo numa visão redutora da administração pública e de políticas que não tem aderência com a realidade. Mais uma vez, em vez de se escutar o pulsar do mundo, propõe-se visões de dominação e hegemonia dirigida centralmente pelos atores eleitos. Os iluminados. A aristocracia da Ajuda!

Ora se está em curso uma política de descentralização administrativa dos museus do estado, faz algum sentido propor agora medidas centralizadoras. Subordinar os museus municipais ao abraço do mostrengo. É certo que haverá muito emprego para justificar em Lisboa e cargos de chefia e mordomias. Mas não será difícil prever a ineficácia das medidas imperiais propostas e as revoltas municipais perante o abafo da criatividade e inovação.

Se a Lei dos Museus e a Rede de Museus não funciona, como nunca funcionou, faz algum sentido, 20 anos depois insistir na asneira. Sobretudo quando num contexto e completamente diferente?

Se a Lei dos museus foi o corolário das política centralizadores implantadas por Carrilho, nos idos de 90, é certo que aprovada por larga maioria parlamentar, os tempos dessas políticas já não subsistem na Europa (e estão em Recessão na América do Sul onde foram implementadas, seguindo algumas orientações da UNESCO, entretanto transformadas). Portanto a proposta carece duma ideia de Política cultural que seja “sustentável”. É certo que a UNESCO nas últimas décadas se “afundou” em detrimento do PNUD e das políticas do “Banco Mundial”. Mas ainda assim tem produzido linhas guia que aqui estão ausentes.

O curioso é que até tinham como modelo o Plano Nacional das Artes, que acaba por ser um modelo que se tem mostrado dinâmico e adequado, e na equipa uma das pessoas que o ajudou a elaborar, nesta proposta nada transparece a não ser uma cópia apressada de medidas. A miopia é muito forte.

Por exemplo: Depois duma extensa análise sobre as variações demográficas, que nos bem conhecemos, conclui-se que a população jovem vai decrescer e a população migrante aumentar. Portanto vai diminuir a função educativa dos museus para a escolas. Sé estes iluminados para continuar a pensar a educação nos museus e um complemento da educação escolar. Pelo meio dizem que e necessário “projetos piloto” para públicos “sub-representados”. Uma excelente boutard sobre a Diversidade Cultural como se dizia antigamente.

Cá estou à espera de ver uma exposição sobre o contributo dos ciganos para os descobrimentos portugueses. Com alguma engenharia ainda se descobrirá a excelência dos ferreiros nómadas na elaboração dos canhões com que o Albuquerque ceifou as hostes do Sultão de Omã durante um par de anos, antes das naus se afundarem ou atolarem nos baixios do Índico. E não faltarão aqueles que sairão a terreiro vociferar contra as forjas que moldaram o ferro das grilhetas com que escravizaram os africanos.

Um outro elemento obre a ignorância desta gente é quando se fala da Sustentabilidade. Tem direito a capítulo próprio. No seu primeiro parágrafo a interrogação é delirante. “Como estamos a assistir a uma forma diferente de gerir recursos naturais, que implicações terá no crescimento do nº de museus?”. Claro que o passado mostra um crescimento constante do nº de museus no mundo. Mais uma fez a confusão entre a organização e o processo a conduzir a um discurso delirante e vazio de sentido, enxertado com umas “guide lines” dos vários comités do ICOM para mostrar sabedoria.

Ora uma dos desafios essenciais do futuro, e talvez fosse relevante este relatório começar por aí, seria interrogar qual é o papel da cultura nesse desenvolvimento sustentável. Saber o lugar da cultura na relação com a economia, o ambiente e a sociedade. Será a partir da resposta a essa questão que poderia desenvolver um modelo de política cultural para os museus. Uma política museológica e não a “visão museológica do eixo Ajuda/Berna.

Se isso fosse feito, verificar-se-ia que há um fator de transformação que atravessa toda a questão que é a transição tecnológica. Neste relatório isso não passa duma mera “compra de computadores” duma presença digital (dita pagina WEB). Ainda não perceberam, coitados, que o computador já não serve para nada a não ser para imprimir os bilhetes, ou para alimentar o tal monstro que gere o inventário. É confrangedor meus amigos!

Talvez a ministra tenha lucidez para agradecer e arrumar o assunto, ou que algum assessor mais perspicaz lhe sugira isso, quem sabe!

O anjo Caído e as lições da história para um património decolonial

Num postal colocado na lista Museum o nosso colega Pedro Cardoso Pereira alerta para o processo de relevância no património.

A sua tese, com a qual estamos de acordo, tem por base a ideia de que atualmente, aquilo a que chamamos Património (que na verdade é já pela sua complexidade patrimónios) sofreu uma mudança de paradigma. Como tal, argumenta, aquilo a que chamamos Património (s) perdeu relevância. A questão de estrutura de relevância no património é um dos contributos deste nosso colega para os Estudos do Património. Vale a pena ler e conhecer esses seus contributos, mas não é isso que nos chamou a atenção.

A questão que aqui nos interessa é a mudança de paradigma. A questão o paradigma é outra questão complexa que desde Tomás Khun afeta a filosofia da Ciência. Ou seja, os seus argumentos são  que face à transformação do paradigma, a estrutura de relevância (o complexo de valores socialmente construídos) também se transformam. Quer isso dizer que um determinado tempo histórico tem um conjunto de características (valores sociais) que podemos observar através dos respetivos patrimónios, ou conjunto de objetos sociais relevantes que nos foram legados.

Vele então a pena discutir a questão sobre o que fazer aos objetos legados, que num determinado processo de transição deixam de ter a tal relevância social que lhe foi atribuída e se tornam objetos contestados. Perderam relevância simbólica, política, de legitimidade e necessitam ser substituídos. Como se faz esse descarte? Será necessário fazê-lo? Quem decido e como decide fazer o quê?

Caberá essa decisão aos políticos ou aos técnicos formados no anterior paradigma, ou ainda à sociedade no seu conjunto.  

Em termos metafóricos é essa a IX tese de Walter Benjamim sobre a Filosofia da História, onde analisa o Anjo da História- o “angelus novus”. O tempo, o progresso, o desenvolvimento, a civilização, inevitavelmente transforma em ruínas o passado.  

A voragem da destruição é inevitável. Os vencedores destroem os vencidos, reduzindo-os ao silenciamento. O problema é que como Walter Benjamim observou no seu tempo (o da ascensão do nazismo na Alemanha) é perceber que “que constitui o horror àqueles que contemplam o cortejo triunfal dos vencedores, aqueles que humilham os corpos dos vencidos, (como metáfora da sua vitória) é que eles não entendem que essa humilhação é ao mesmo tempo a negação do seu triunfo e da sua civilização

Ora se bem entendo as teses de Benjamim (com todo o messianismo que incorporam), será necessário superar esse ciclo de destruição e violência por um ciclo de compreensão a criatividade. A superação do colonialismo (do pensamento) do racismo (na sociedade), não é uma discussão sobre se existe ou não existe ou como existe. O relevante será pensar como vamos criar outros patrimónios que sejam inovadores e significativos para o nosso novo presente.

Eu gosto muito de citar o caso como o governo moçambicano lidou, em 1975, com o património construído pelos portugueses em Moçambique. Para simplificar vou usar o exemplo da estátua de Salazar que se encontra na Casa da Moeda de Maputo. O que fizeram os moçambicanos. Colocaram-me de castigo. Voltado para um canto. Não a destruíram, ou derreteram (é de bronze). Não deixaram o património herdado nos seus espaços de dominação na cidade, mas também não o destruíram. Reduziram-no. A sua história continua a ser, sem dúvida,  contestada, polémica, simbolicamente violenta. Mas só o reconhecendo foi possível construir novo património. Esses patrimónios são como anjos caídos, que depois de terem sido úteis se dissolvem na poeira do tempo, para se reconfigurarem de novo.

Noutro assunto tem também o nosso colega Pedro Cardoso Pereira razão. As nossas universidades estão a ser responsáveis pela exaltação no tratamento das questões da história. O grau de simplicidade na problematização das questões patrimoniais torna-as co responsáveis pela violência que hoje sentimos na sociedade. A incapacidade de leitura do real nas universidades (elas são também instituições de outros tempos) deixou-as bloqueadas nas respostas e sitiadas das propostas “ativistas” sobre as narrativas do politicamente correto” criado pelas modas importadas do continente americano. 

Seria para necessário para inverter esse ativismo estéril, uma ativismo criativo e inovador. Uma pedagogia assertiva, que ao invés das proclamações e dos atos públicos de afirmação pessoal, promovessem a pedagogia decolonial e pedagogia para a autonomia. trabalhando as heranças contestadas na base duma cultura de paz. Eu desconfio que não o sabem fazer !

A revolta de nada serve sem libertação do ser! Mas isso ficará para outra ocasião.

XXIII-Museus Portugueses para a diversidade?

Dando continuidade à questão sobre a definição dos museus como espaço de narrativa inclusiva, no postal anterior, onde abordamos essa questão a partir dos museus nacionais portugueses, concluímos sobre a difícil inclusão da modernidade. Há alguma tensão entre o discurso nacional português, que procura a afirmação duma identidade construída socialmente, com profunda ligação com as narrativas históricas novecentistas (de afirmação das nacionalidades); e a aceitação de narrativas que assumam a pluralidade de vozes que existem no seu contexto.

As narrativas museológicas portuguesas são no essencial elitistas e unívocas (monovocais). O seu local de enunciação é palaciano, construído numa leitura ideológica da histórica, silenciando comunidades e memórias. É certo que há algumas exceções, que confiram as regras. Em Mértola, na continuidade de um trabalho que vem de David Lopes, Borges Coelho, assumido por Claudio Torres num contexto de uma vida dedicada à diversidade cultural, afirmou-se alguma pluralidade de vozes. Poucas influências irradiaram, embora Torres tenha um escola (arqueológica) com vários trabalhos a sul do Tejo.

Notamos também uma concentração destes equipamentos, qualificados como nacionais, na cidade capital. Resultado do tempo dos museus, é certo. Mas também na cidade de Lisboa, como já noutro sítio notamos (The Role of cultural Diversity for Sustenaible Cities, 2018, p 144) , se verifica uma concentração de “equipamentos” no seu “centro” histórico e turístico. Estamos a falar dos museus nacionais e dos museus municipais. Ao contrário do que sucede, por exemplo, com as bibliotecas ou centros culturais, os bairros onde habitam os lisboetas, não tem museus. Não á museus em Chelas, no Bairro do Padre Cruz, na Musgueira, no Vale de Alcântara, etc.

Não há memórias dos lisboetas que construíram a cidade, não há trabalho sobre o trabalho na cidade, sobre a vida na cidade. Não há trabalho de inclusão nem sobre a diversidade sobre cidade, a partir dos seus museus (Há mais uma vez algumas excepções que confirmam a regra no Museu de Etnologia). Não é que o trabalho museológico que agora se encontra subordinado à EGEAC seja mau. A questão é que continua a predominar uma estratégia voltada para os turistas e paras as narrativas elitistas, do pitoresco e das coleções de outros tempos, com as quais se vai convivendo com estéticas modernas.

Inclusão e Diversidade são hoje conceitos redondos. Politicamente corretos, não são questionados de forma crítica pelos profissionais dos museus. O que quer dizer inclusão. Etimologicamente significa colocar dentro de. Como conceito de política pública, significa trazer as comunidades marginais (periféricas) para o centro das políticas públicas. Como a ideia do DIM 2020 do ICOM é inclusão na diversidade, implicaria dar voz à pluralidade dessas comunidades.

E como se trabalha museologicamente com essas comunidades marginalizadas para as incluir na sua diversidade?

XXII – Museus Portugueses inclusivos ?(O Lugar de Portugal no Mundo VI)

Mais do que definir o que é ou não é museu, talvez importe discutir os processos patrimoniais que acontecem nos museus portugueses. Por hipótese, a caracterização dos museus portugueses, corresponderão a um retrato ou a uma narrativa patrimonial.

Para evitar a questão do que consideramos ou não museus, não porque não seja relevante, mas porque representará um universo muito extenso, cuja responsabilidade de conhecer deveria caber a um Instituto ou Observatório (que não em Portugal não existem como ferramenta de política pública), olhamos para os ”Museus Nacionais”.

O Instituto Português de Museus foi uma figura administrativa da Administração Publica Portuguesa criado em 1991 até 2011, quando a lógica da “austeridade” levou à concentração de vários departamentos numa Direção Geral do Património. Essa estrutura administrava diretamente os museus nacionais e o processo da chamada Rede Portuguesa de Museus. O Observatório das Atividades Culturais, criado em 1996, numa parceria entre uma universidade e o Ministério da Cultura, foi extinto também em 2011, e desenvolveu vários trabalhos de investigação sobre atividades culturais, entre os quais os museus.

Malgrado estas entidades terem existido e estudado os museus, as diversas transformações da administração pública levaram, no momento atual a um deficiente conhecimento da realidade.  Traduzindo numa linguagem mais corrente. Se queremos conhecer o que é o “panorama museológico” português, no tempo presente, ou adamos no terreno ou conhecemos por aproximação, por via de inquéritos ou conversas de corredor. Confesso que durante os anos em que tive a oportunidade de ler trabalhos de investigação, vários foram os candidatos que conduziram estes inquéritos a museus. Em regra conduziam a resultados redundantes, pois quase sempre as questões colocadas apenas permitiam conhecer uma realidade “administrativa”.

É uma tradição “regulamentária” que se tem vindo a instalar no país, mal absorvida a tradição europeias, que se miscigenou sobre a prévia estutrutura administrativa autoritária herdade do estado novo. As ações só existem se estiverem previstas nos regulamentos ou nos projetos. Se não se enquadram nas normas, não são considerados ou são negadas. A negação de realidade é um estado de alma!

Na falta de melhor olhemos então para esse universo dos museus e palácio nacionais. A listagem é conhecida. São 24 “equipamentos” (veja aqui http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/dgpc/) que ostentam a categoria “nacional”. Esperam-se que sejam representativos da “nação”.

Como podemos ver, estes museus são todos eles museus criados a partir duma ideia de cultura como “elite” ou como “erudição”. De popular encontramos apenas o museu de arte popular, resquícios da exposição do mundo português, e da ideia de portugalidade que se pretendeu criar a partir do folclore. Ou seja observa o popular a partir dum lugar de elite.

Uma outra questão é a sua distribuição pelo território. Dos 24 equipamentos, 13 estão concentrados em Lisboa (cidade), aos quais podemos juntar mais 3 na sua área metropolitana. No Porto 1, em Coimbra 2, ao que se juntam alguns em cidades médias, incluindo o recém-criado Museu de Peniche, criado como resultado de um movimento social contra a gentrificção do espaço, e que se constitui como o “museu do regime”. (não vem ao caso mas a sua narrativa é idêntica a um museu de Lisboa).

É uma distribuição por antigos palácios, casas senhoriais, com temas eruditos, excetuando-se os casos referidos, não se vislumbrando neles as questões da diversidade e da inclusão social. No Algarve e nas Ilhas, por exemplo não há museus nacionais. No Alentejo 1, na Beira Interior 1 e em Trás-os-Montes também não há (há alguns casos em que os equipamentos são administrados por um regime fundacional).

Poderíamos ainda introduzir uma outa variável, que é o tempo de constituição. Herdeiros duma tradição perservacionista do século XIX, os museus mantem-se razoavelmente estáticos no tempo. São herdeiros do seu tempo. Nessa leitura, a museologia portuguesa ainda está na “era das revoluções”. Tarda-se em entrar na modernidade.

Há aqui um paradoxo que dificilmente os museus herdeiros do “tempo dos museus” poderão ultrapassar. Estes museus são nacionais porque se constituem como uma narrativa de todos, ou são nacionais porque são em termos simbólicos “únicos”? E são inclusivos? São inclusivos da Diversidade?

Estas questões talvez pudessem estar em cima da mesa no DIM 2020?

Poética da autonomia XIV – A Cidade pendémica

Uma das atividades que é suposto, ou pelo menos recomendado pelo ICOM, como tarefa dos museus em tempo de pandemia, ainda que encerrados, é documentar esse tempo na cidade.

Trata-se sem dúvida duma tarefa difícil para a maioria dos museus e dos seus profissionais que Há muito estão confinados nas suas coleções e nos seus edifícios. Para este, o que a pandemia trouxe de novo, pelo menos para alguns deles, é a total ausência do público. Ausência forçada através do encerramento compulsivo das portas.

Documentar a vida das cidades, dos seus habitantes, é coisa que raramente encontramos nos museus tugas. Com honoráveis excpções, estes museus centrados nas suas coleções, não colhem a vida do mundo exterior. Os seus profissionais, formados nas escolas museológicas lusas, também não têm habilidades para o fazer.

Este ano o ICOM propõe como tema do Dias internacional que se celebra a 18 de maio a questão da Diversidade e da Inclusão. Tema bonito, dentro do discurso politicamente correto, que convida, em ano de tensões em torno da definição de museu, as belas proclamações de princípios.

Não deixa de ser curioso que estes grandes eventos são rapidamente apropriados pelos aparelhos de marketing dos museus. Falhos de ações, capturam ideias externas, apropriam-se indiferentemente dos objetos que se pretendem para o tal “dia internacional” (que recorde-se é a inclusão social da diversidade) a vendem o seu próprio produto.

Seria de prever tal como se recomenda aos profissionais de museus, que, por exemplo, nos museus de uma cidade surgissem atividades sobre as suas populações mais carenciadas, sobre a diversidade das suas gentes, dos problemas que existem nesta situação pandémica.

E com alguma perplexidade que entre as abundante iniciativas virtuais e temáticas que vão surgindo, esta pandemia que afeta a todos, o que mantem encerrados os museus, não veja uma proposta de ação dos museus que afeta.

No meu parco entender, um museu que está ligado à sua cidade, estaria na primeira linha de enfrentar a pandemia. Não fazia de conta que a vida corre normalmente, de forma virtual. Debater não baste. É necessário agir.

A minha cidade:

Saio. Não encontro ninguém na vereda. Ouço os cantos dos pássaros e observo a primavera em flora. Se este fosse um tempo normal, veria gente em azáfama, correndo para seu seus destinos. Sinto o sol na cara. Delicio-me com a brisa doce do vento suão. No caminho, entretido a contar pedrinhas, recebo um telefonema da prima Ana a dizer que está grávida. Há esperança de vida em tudo. Continuo a andar. Perco-me na arriba. Deixo-me levar para onde sopra o vento. Haverei de chegar a bom porto.