Arquivo da categoria: Diversidade Cultural

Vinho: Museologia e Globalização III

1.3 Cor e luminosidade

A avaliação sensorial do vinho envolve a avaliação da sua aparência, aromas, sabor, sabor e textura ou sensação na boca do vinho usando os sentidos da visão, do olfato, do paladar e do tato. A perceção dos atributos sensoriais contribuídos pelos vários componentes do vinho – principalmente álcool, açúcares, ácidos, cor e tanino e compostos de aroma e sabor – determina nossa impressão geral da qualidade do vinho.

A observação do vinho é o primeiro passo para avaliar o vinho. Basta olhar para a sua cor e verificar se tem uma cor limpa e brilhante. A sua clareza do permite a sua avaliação visual. A sua cor é descrita em termos de intensidade ou profundidade e matiz ou tonalidade da cor.

Na descrição da tonalidade da cor dos vinhos brancos e tintos incluem termos que vão do incolor a amarelo dourado, para os vinhos brancos; de laranja a rosa salmão para vinhos rosés, e de rubi a roxo e cor de tijolo para vinhos tintos. Em alguns casos a tonalidade do vinho pode ser descrita como castanha. Em vinhos generosos isso poderá ser aceitável, mas geralmente indica que os vinhos estão oxidados, o que é frequente em vinhos brancos antigos.

Os vinhos comerciais geralmente apresentam uma boa cor e podem ser descritos como brilhantes, brilhantes, límpidos ou transparentes. Em contraste, vinhos de baixa clareza podem ser descritos como opacos ou turvos, nubloso ou pastoso

A avaliação visual do vinho também pode indicar a sua idade, o seu estilo e a qualidade do vinho. A cor do vinho intensifica-se significativamente com o seu envelhecimento. Por exemplo, um vinho branco jovem pode apresentar inicialmente uma tonalidade pálida, palha ou até mesmo incolor, mas com o tempo, a cor tenderá a tornar-se mais amarelada. Da mesma forma, a intensidade de uma cor de vinho tinto irá diminuir com a sua idade.

Os tons roxos de um vinho tinto jovem irão gradualmente progredir para vermelho e então vermelho tijolo e, eventualmente, vermelho acastanhado à medida que envelhecem.

A viscosidade de um vinho fornece uma indicação de seu corpo e, portanto, das suas caracterisitica, e pode ser facilmente avaliada girando o copo espalhando o vinho pelas paredes do copo. Vinhos que contêm altos níveis de açúcar ou álcool podem rasgar a superfície do vidro devido à tensão superficial. Esse movimento vai ajudar a libertar os aromas e dá-lhe uma perceção da força do vinho, pela maior ou menor viscosidade da lágrima que fica nas paredes do copo. Vinhos doces e fortificados são bons exemplos de vinhos viscosos. Os vinhos de corpo leve são consideravelmente menos viscosos e, portanto, parecerão mais aquosos em comparação.

II – Nortada

Vento de Noroeste ou nortadas. Diz-se entre os habitantes do litoral estremenho, que “primeiro de agosto, primeiro de inverno!” Trata-se dum vento frio, que na costa ocidental da Península, sopra do Norte e Noroeste. Os cientistas justificam o vento como um exemplo da chamada Força de Coriolis, um experiencia que o pendulo de Foucault demonstra.

Pseudoforças de Coriolis é centrífuga. Na física é uma pseudoforça, uma força inercial que equilibra a dinâmica circular (duma “força” centrífuga) em relação a um determinado ângulo. Depende da velocidade do corpo em relação ao eixo de rotação. “ Pode-se assim dizer que a pseudoforça centrífuga é o componente estático da força inercial que se manifesta no referencial em rotação enquanto que a pseudoforça de Coriolis é o componente dinâmico.” Diz a Wilkipedia

Nortada nos Arrifes da Coelha

Ela explica os movimentos das massas de ar na superfície terreste, neste caso na origem dos ventos de nortada, que são predominantes com a deslocação mais para sul do anticiclone dos Açores a partir de meados do verão.

O vento de norte torna-se portante dominante até ao final da primavera seguinte. São ventos que são, de um modo geral constantes e que facilitaram as navegações de cabotagem à vela de norte para sul, e por consequência, obrigavam a navegação à bolina no sentido inverso.

Programação Cultural III: Entre festas ou alta cultura?

No último postal desta série “Programação Cultural” distinguimos, na evolução da profissionalização desta profissão, as suas origens eruditas e populares. Avançamos com a ideia que ao longo dos últimos anos do século XX, a profissão “consolida-se” e “democratiza-se”. Consolida-se porque se começa a autonomizar, e democratiza-se porque ultrapassa as suas limitações de profissão exclusiva de instituições de “alta-cultura”. Torna-se uma profissão que se vai alargar e consolidar na concretização de eventos, festivais e mesmo em instituições culturais de base.

A programação popular tende, numa primeira fase de consolidação a ser sobretudo uma programação de eventos festivos, de entretenimento e animação, que se concretizam através de festas populares, feiras, romarias ou festivais. Estas celebrações, em meados dos anos 90, com as construções de redes de equipamentos culturais dos municípios, e o surgimento de políticas culturais municipais começam a “profissionalizar-se”.

Estamos de novo numa outra distinção difícil de precisar e que cada vez mais fará menos sentido. A distinção entre erudito e popular foi absorvida pela questão dos públicos. Tudo é público, independentemente do valor cultural do programa.

No caso Português vale a pena entender como se democratizou a “programação cultural”. A “Festa do Avante” e o caso de Ruben de Carvalho  talvez sejam um bom exemplo para entender algumas questões de democratização do acesso à cultura, e que tem sido pouco referenciadas.

Organizada coletivamente pelo PCP, a Festa do Avante realiza-se interruptamente desde 1974. O então dirigente Ruben de Carvalho (1944-2019) será uma personalidade que se destacará na programação cultural desta festa, que sendo essencialmente política, encontrou no seu programa cultural uma forma muito peculiar de criar e alargar os seus públicos. Nos anos iniciais da democracia havia até uma linha de divisão entre municípios que “investiam” em cultura e apoiavam atividades culturais (quase todos de esquerda, com então os de cor comunista a predominarem) e os que nela não investiam, (nessa altura mais a norte e sobretudo de direita). Das experiencias de organização das festa do avante (e na época da experiencia recolhida pelas digressões da Banda “os Trovante” foram surgindo vários festivais, (por exemplo o Sol da Caparica, Musicas do Mundo em Sines, etc.) que foram primeiras experiencias de profissionalização de “produtoras culturais”, talvez ainda sem essa classificação.

O sucesso destas políticas culturais nas autarquias e a entrada de Portugal na CEE, vão levar a uma universalização dos “investimentos” na cultura. Esbatem-se as distinções entre direita e esquerda por um lado e surgem as primeiras empresas culturais, que se dedicam a produzir e a programar os eventos culturais para municípios ou empresas.

Um outro caso também muito pouco estudado em Portugal, e que servirá de modelo e escola de formação para programadores culturais serão as “Festas de Lisboa”. A página da CML (Cultura na Rua) oblitera uma parte substancial dessa história. (https://www.culturanarua.pt/historico/).

No início dos anos 90 a Câmara de Lisboa é governada por uma original coligação socialista com os comunistas, depois de 10 anos de uma presidência do centrista Kruz Abecassis. Tendo como presidente Jorge Sampaio, é vereador da cultura João Soares, que mais tarde lhe sucederá na presidência. Devido ao acidente de avião que havia sofrido em Angola, Soares ficará vários meses afastado do executivo, que é assumido pelo presidente Sampaio. Será seu braço direito, durante esse período, Miguel Portas. Será com Porta que as “Festas de Lisboa” ganharão espaço na cidade, ultrapassando a sua condição de sardinhada e desfile de marchas, para assumir uma programação cultural, tomando conta da rua. A ideia chave então era “A festa tomar conta da cidade”.

Nos seus vários anos, foram organizados espaço de concertos, com programação musical nas várias praças da cidade. Ao sabor das modas de então, o município cria uma empresa municipal (A EGAC) para desenvolver estas atividades culturais. Nesses primeiros anos, a atividade de programação era desenvolvida por equipas contratadas por seis meses, iniciando-se os trabalhos de preparação em janeiro, e dissolvendo-se em julho, após o encerramento das festas. Faziam-se os programas através da seleção de músicos e bandas, organizavam-se os recintos de rua, montando palcos, som e iluminação, faziam-se “press release” sobre a festa, antes e durante. Finalmente havia que fazer o controlo da qualidade dos espetáculos.

Como resultado desse trabalho foi-se criando uma “máquina” de eventos, bem oleada, que a câmara ia usando nas suas várias atividades culturais, desportivas e eventos. Naturalmente que a empresa tinha uma atividade regular na cidade ao longo do ano. As festas de Lisboa eram um “evento” extraordinário que implicava o recrutamento temporário de profissionais, que durante o resto do tempo iam oferecendo os seus serviços a outros clientes.

De onde vinham estes novos profissionais?

Pelas terras da Beira (sinais de Viriato e dos Lusitanos)

Fazia alguns anos que andava para rever Idanha-a-Velha. Talvez há mais de 30 anos que por lá não passava, incluindo as terras raianas de Monsanto. Nos idos de 90 lembro-me de ter assistido à criação do Projeto Aldeias Históricas de Portugal, de que Idanha fazia parte, juntamente com Monsanto e Sortelha.

Sortelha era na altura uma vila encastelada, pobre e arruinada, com inúmeras casas à venda. Ao contrário de Monsanto, que tinha sido galardoada com o título da “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, no célebre concurso engendrado em 1938 por António Ferro e o sei Secretariado Nacional de Propaganda. Ser segundo fez toda a diferença, levando para a concorrente os fluxos turísticos, então ainda frágeis, mas que permitiram alimentar um economia de serviços, valorizar o imobiliário, restauração e artesanato e até permitiu o desenvolvimento da cultura local, das cantadeiras de adufe a alguma pesquisa sobre o cancioneiro da Beira Baixa.

Regressando às terras de Idanha-a-Velha, alvo de relevantes obras de requalificação da muralha pela DGPC, em tempos de pós-Covid, assemelhou-se a uma visita a uma aldeia fantasma. Alguns habitantes locais em redor da amoreira centenária. Uma loja de artesanato, gerida pelo dono do café, vende roteiros, mel e vinhos locais. O mais surpreende é o imenso palácio Marrocos, implantado no meio da aldeia, em espaço sobranceiro, às ruinas do antigo paço episcopal. Um exemplo de que as megalomanias são intemporais. Tal como o centro de interpretação numa aldeia com 69 habitantes, que vivem do fulgor cultural do passado.

E sobre os Lusitanos. É naturalmente pouco provável que Viriato por ali tenha passado. A aldeia-vila romana, situada na rota entre Mérida e a Guarda. Mas em Monsanto a imagética do guerreiro rebelde que enfrentou os romanos está bem presente.

Viriato e os Lusitanos constituem um poderoso símbolo identitário. Mítico em grande parte, idolatrado como figura fundadora duma proto-nacionalidade. A sua rebeldia contra os romanos será provavelmente a razão da sua menor expressão no panteão nacional. O Estado Novo não terá visto com bons olhos a celebração dum herói guerrilheiro, cuja memória radica na revolta contra a ordem romana. No panteão nacional, celebraram-se sobretudo as gesta dos navegadores que “por mares nunca antes navegados, novos mundos deram ao mundo”.

Ainda assim, como herói menor, foi celebrado no século XIX, como chefe que foi dessa tribo dos lusitanos. E Lusitanos, é o povo redescoberto no renascimento, que Camões canta da sua monumental obra épica. Canta a sua rebeldia contra a civilização romana, cuja influencia, tendo acaba por vingar na língua e na civilização, lhe adiciona o ímpeto insurrecional, criativo, irrequieto, que fará dos portuguese um dos filhos do lácio.

Caída Roma, a sua influência multiplicou-se através dessas recriações. O curioso destas tensões é saber como celebrar essa excentricidade. Ante dos romanos ou como resultado dos romanos, quando se recria uma nova nação, que muitos ainda pensam como destinada a uma qualquer redenção.

O anjo Caído e as lições da história para um património decolonial

Num postal colocado na lista Museum o nosso colega Pedro Cardoso Pereira alerta para o processo de relevância no património.

A sua tese, com a qual estamos de acordo, tem por base a ideia de que atualmente, aquilo a que chamamos Património (que na verdade é já pela sua complexidade patrimónios) sofreu uma mudança de paradigma. Como tal, argumenta, aquilo a que chamamos Património (s) perdeu relevância. A questão de estrutura de relevância no património é um dos contributos deste nosso colega para os Estudos do Património. Vale a pena ler e conhecer esses seus contributos, mas não é isso que nos chamou a atenção.

A questão que aqui nos interessa é a mudança de paradigma. A questão o paradigma é outra questão complexa que desde Tomás Khun afeta a filosofia da Ciência. Ou seja, os seus argumentos são  que face à transformação do paradigma, a estrutura de relevância (o complexo de valores socialmente construídos) também se transformam. Quer isso dizer que um determinado tempo histórico tem um conjunto de características (valores sociais) que podemos observar através dos respetivos patrimónios, ou conjunto de objetos sociais relevantes que nos foram legados.

Vele então a pena discutir a questão sobre o que fazer aos objetos legados, que num determinado processo de transição deixam de ter a tal relevância social que lhe foi atribuída e se tornam objetos contestados. Perderam relevância simbólica, política, de legitimidade e necessitam ser substituídos. Como se faz esse descarte? Será necessário fazê-lo? Quem decido e como decide fazer o quê?

Caberá essa decisão aos políticos ou aos técnicos formados no anterior paradigma, ou ainda à sociedade no seu conjunto.  

Em termos metafóricos é essa a IX tese de Walter Benjamim sobre a Filosofia da História, onde analisa o Anjo da História- o “angelus novus”. O tempo, o progresso, o desenvolvimento, a civilização, inevitavelmente transforma em ruínas o passado.  

A voragem da destruição é inevitável. Os vencedores destroem os vencidos, reduzindo-os ao silenciamento. O problema é que como Walter Benjamim observou no seu tempo (o da ascensão do nazismo na Alemanha) é perceber que “que constitui o horror àqueles que contemplam o cortejo triunfal dos vencedores, aqueles que humilham os corpos dos vencidos, (como metáfora da sua vitória) é que eles não entendem que essa humilhação é ao mesmo tempo a negação do seu triunfo e da sua civilização

Ora se bem entendo as teses de Benjamim (com todo o messianismo que incorporam), será necessário superar esse ciclo de destruição e violência por um ciclo de compreensão a criatividade. A superação do colonialismo (do pensamento) do racismo (na sociedade), não é uma discussão sobre se existe ou não existe ou como existe. O relevante será pensar como vamos criar outros patrimónios que sejam inovadores e significativos para o nosso novo presente.

Eu gosto muito de citar o caso como o governo moçambicano lidou, em 1975, com o património construído pelos portugueses em Moçambique. Para simplificar vou usar o exemplo da estátua de Salazar que se encontra na Casa da Moeda de Maputo. O que fizeram os moçambicanos. Colocaram-me de castigo. Voltado para um canto. Não a destruíram, ou derreteram (é de bronze). Não deixaram o património herdado nos seus espaços de dominação na cidade, mas também não o destruíram. Reduziram-no. A sua história continua a ser, sem dúvida,  contestada, polémica, simbolicamente violenta. Mas só o reconhecendo foi possível construir novo património. Esses patrimónios são como anjos caídos, que depois de terem sido úteis se dissolvem na poeira do tempo, para se reconfigurarem de novo.

Noutro assunto tem também o nosso colega Pedro Cardoso Pereira razão. As nossas universidades estão a ser responsáveis pela exaltação no tratamento das questões da história. O grau de simplicidade na problematização das questões patrimoniais torna-as co responsáveis pela violência que hoje sentimos na sociedade. A incapacidade de leitura do real nas universidades (elas são também instituições de outros tempos) deixou-as bloqueadas nas respostas e sitiadas das propostas “ativistas” sobre as narrativas do politicamente correto” criado pelas modas importadas do continente americano. 

Seria para necessário para inverter esse ativismo estéril, uma ativismo criativo e inovador. Uma pedagogia assertiva, que ao invés das proclamações e dos atos públicos de afirmação pessoal, promovessem a pedagogia decolonial e pedagogia para a autonomia. trabalhando as heranças contestadas na base duma cultura de paz. Eu desconfio que não o sabem fazer !

A revolta de nada serve sem libertação do ser! Mas isso ficará para outra ocasião.

XXVI – Museus de perguntas ou museus de estórias?

Ondem, dia 18 de Maio, foi o Dia Internacional dos Museus, em Portugal coincidente com a sua reabertura ao público. Em si é bom a reabertura deste tipo de equipamentos que são lugares de cultura. A cultura é um nutriente relevante de ser humano. Tão relevante como os alimentos que ingere, que são também eles elementos de cultura, tal como as formas de lazer e as formas de sociabilidade e relacionamento. Trata-se dum relevante reconhecimento da sua necessidade.

Como temos vindo a salientar, nestes dias internacionais verificam-se um conjunto de proclamações que procuram alinhar princípios. Poderei estar enganado mais muitas vezes percebe-se que há uma desconformidade entre as proclamações nestes dias e as práticas dos museus.

Em termos básicos, as questões lançadas, proclamações correspondem a questões problemas, lançados aos museus. Devem ser abordadas de forma crítica. Raramente vemos os museus problematizar essas questões. São poucos os museus que colocam questões lançam desafios, e muitos são os museus que contam estórias. Em regra estória já consolidadas e que correspondem a visões do munto a a convicções das aristocracias e elites de cada território.

Mas se essa é uma realidade herdada com a qual as diferentes instituições se foram consolidam ao longo dos diferentes tempos desses museus, será importante pensar como é que os seus profissionais podem começar a pensar uma museologia de perguntas. Em suma uma museologia crítica e autónoma!

XXV – Museus e Realidade (O Lugar de Portugal no Mundo IX)

Estarão os museus a ler a realidade do mundo. Isto é das sociedades onde se inserem, dos territórios onde se localizam, das comunidades de que fazem parte. Olhando por alto das várias iniciativas produzidas para este dia, no caso dos museus portugueses, encontramos um pouco de tudo.

No catálogo da Pporto de Museus podemos ter uma visão geral das diferentes propostas, neste ANO MARCADO POR A “REABERTURA” DE PORTAS, após o confinamento forçado provocado pelo COVID19.

Entre os casos dos museus que aproveitam o tema para fazerem a divulgação das suas coleções até aqueles que procuraram abordar o tema desenvolvendo os “espólios” das suas coleções, ou procurando novas leituras e narrativas de acordo com este tema, encontramos um retrato desta realidade que é constituída pelos museus portugueses. Essa é uma realidade.

Uma questão que tem sido debatida, debaixo do grande chapéu temático, é o papel que os museus podem ter na redução das desigualdades sociais. Por exemplo, neste dois meses de confinamento, os museus desenvolveram de forma acentuada propostas digitais e de acesso virtual. Um dos resultados que já é conhecido desta “nova realidade” como resposta à pandemia, é que a disponibilidade das coleções on line está longe de ser usas de forma extensiva pela sociedade.

Do que vamos conhecendo, dos dados da transição “forçada” para o digital, é que esse processo acentuou as desigualdades e reforçou o acesso predominantemente elitista da cultural. Os profissionais de museus usaram uma narrativa e processos que se destinaram, fundamentalmente a si próprios. Este efeito de espelho dos processos de digitalização dos museus é um resultado das suas práticas. Será que os museus portugueses, neste DIM2020 estão a contribuir para a promoção da equidade da inclusão e da diversidade em todas as suas dimensões?

XXIV – Museus Portugueses e Igualdade? (O Lugar de Portugal no Mundo VIII)

Nos dois portais anteriores, escritos a propósito do tema geral do lugar de Portugal no Mundo, analisamos o tema proposto para o Dia Internacional dos Museus que amanhã (dia 18 de Maio de celebra), a partir das questões da inclusão e diversidade.

Procuramos com essas análises trabalhar sobro os bloqueios dos discursos e narrativas em momentos de transição. Os museus, enquanto construções sociais, são casos que nos permitem caracterizar o que são e de que modo se ajustam às necessárias transformações narrativas e procedimentais.

Tenho defendido que eles já estão a acontecer e que estão acontecer fora dos museus. Não é necessário pensar a partir duma perspetiva negacionista: ou os museus mudam ou desaparecem! Estou convencido que eles, na maioria dos casos continuarão a existir nas suas atividades rotineiras e a albergar os seus profissionais dedicados. O que eu tenho vindo a defender é que é necessário pensar fora da caixa. Pensar ações que se procurem adequar aos novos mundos.

Quando em Maio de 68 os jovens insurgentes de Paris escreveram nas paredes do Louvre “Deixem o Sena atravessar o museu!”, anunciavam uma nova era. Uma era que questionava a sacralidade dos objetos recolhidos nos museus. E foi uma nova era. O musue passou a estar na comunidade, no território, desenvolveu uma Função Social, incorporou novas tecnologias, etc.

Mas o que se pretende com os museus como lugar de igualdade. O termo faz parte da famosa trilogia revolucionária setecentista (Liberdade, Igualdade e Fraternidade), ainda a hoje venerada em terras francesas (e não só!).

Se a liberdade ganhou foros de alforria em todo o mundo (com algumas exceções que confirmam a regra) a questão da igualdade é talvez mais controversa. A leitura da proclamação do ICOM (em http://icom-portugal.org/2019/12/19/dia-internacional-dos-museus-2020-museus-para-a-igualdade-diversidade-e-inclusao/ )

Também não ajuda. Dá uma certa ideia que que os museus como instituições confiáveis, se estão a por em bicos de pés a afirmar que: “-Aqui estamos nós! Somos importantes! Não se esqueçam que existimos! Reconhecemos a mudança e queremos ser atores dessa mudança!”

As proclamações são importantes como afirmação de princípios. Mas nos tempos atuais, exige-se que a cada enunciado, se associe uma prática (chamemos-lhe política).

Ora a questão da Igualdade está estabilizada em termos de direitos civis. Somos todos iguais perante a lei (onde se afirma o primado política dos direitos civis, ou Lei). A questão que hoje se coloca, é que tendo esse potencial quando nascemos, nem todos temos os mesmos percurso nem acesso aos bens comuns da humanidade. Nascemos num dado contexto, e é suposto, ao longo da vida de cada um, de acordo com as suas capacidades, contribuir para o nosso bem-estar e também dos outros. Esta última questão é importante, mas não vem ao caso desenvolver. Mesmo iguais, há portante diferençaas. Diferenças que advém de múltiplos fatores.

Ora se o que se pretende é resolver as desigualdades de acesso à certos bens e serviços comuns (cultura, educação, saúde, espaço-publico, bem-estar, etc), as melhores políticas (ações) são a promoção da Equidade.

Equidade é reconhecer a diferença dentro da igualdade. Por isso, por razões de promoção da equidade, se justificam politicas de descriminação positiva, para incluir, por exemplo, comunidades marginalizadas (afro descendentes, ciganos, LGBTTT, pobres, desempregados, sem-abrigo, remediados, descrimnados, doidos, prisioneiros de crimes civis, etc.).

Talvez fosse isso que o ICOM pretendesse valorizar. Mas parece-me que estou a ter um erro de paralaxe. Ao olhar para as várias celebrações que se preparam para o próximo dia 18, não vejo nada disto a ser abordado.

Talvez estes dias não sejam para mim e para o Museu da Educação e Diversidade. Provavelmente devia mudar de assunto.

XXIII-Museus Portugueses para a diversidade?

Dando continuidade à questão sobre a definição dos museus como espaço de narrativa inclusiva, no postal anterior, onde abordamos essa questão a partir dos museus nacionais portugueses, concluímos sobre a difícil inclusão da modernidade. Há alguma tensão entre o discurso nacional português, que procura a afirmação duma identidade construída socialmente, com profunda ligação com as narrativas históricas novecentistas (de afirmação das nacionalidades); e a aceitação de narrativas que assumam a pluralidade de vozes que existem no seu contexto.

As narrativas museológicas portuguesas são no essencial elitistas e unívocas (monovocais). O seu local de enunciação é palaciano, construído numa leitura ideológica da histórica, silenciando comunidades e memórias. É certo que há algumas exceções, que confiram as regras. Em Mértola, na continuidade de um trabalho que vem de David Lopes, Borges Coelho, assumido por Claudio Torres num contexto de uma vida dedicada à diversidade cultural, afirmou-se alguma pluralidade de vozes. Poucas influências irradiaram, embora Torres tenha um escola (arqueológica) com vários trabalhos a sul do Tejo.

Notamos também uma concentração destes equipamentos, qualificados como nacionais, na cidade capital. Resultado do tempo dos museus, é certo. Mas também na cidade de Lisboa, como já noutro sítio notamos (The Role of cultural Diversity for Sustenaible Cities, 2018, p 144) , se verifica uma concentração de “equipamentos” no seu “centro” histórico e turístico. Estamos a falar dos museus nacionais e dos museus municipais. Ao contrário do que sucede, por exemplo, com as bibliotecas ou centros culturais, os bairros onde habitam os lisboetas, não tem museus. Não á museus em Chelas, no Bairro do Padre Cruz, na Musgueira, no Vale de Alcântara, etc.

Não há memórias dos lisboetas que construíram a cidade, não há trabalho sobre o trabalho na cidade, sobre a vida na cidade. Não há trabalho de inclusão nem sobre a diversidade sobre cidade, a partir dos seus museus (Há mais uma vez algumas excepções que confirmam a regra no Museu de Etnologia). Não é que o trabalho museológico que agora se encontra subordinado à EGEAC seja mau. A questão é que continua a predominar uma estratégia voltada para os turistas e paras as narrativas elitistas, do pitoresco e das coleções de outros tempos, com as quais se vai convivendo com estéticas modernas.

Inclusão e Diversidade são hoje conceitos redondos. Politicamente corretos, não são questionados de forma crítica pelos profissionais dos museus. O que quer dizer inclusão. Etimologicamente significa colocar dentro de. Como conceito de política pública, significa trazer as comunidades marginais (periféricas) para o centro das políticas públicas. Como a ideia do DIM 2020 do ICOM é inclusão na diversidade, implicaria dar voz à pluralidade dessas comunidades.

E como se trabalha museologicamente com essas comunidades marginalizadas para as incluir na sua diversidade?

XX– O Lugar da cultura (Portugal no mundo IV)

Uma busca para um lugar da cultura da autonomia da cultura portuguesa no mundo é o problema que esboçamos no último postal. Um problema impronunciável. Impronunciável, pois como escreve o nosso colega Pedro Cardoso Pereira nas suas reflexões na lista museum,

… não se pode dizer. É do foro das condições epistemológicas inerentes ao próprio processo de Conhecimento, e à própria condição ontológica do Ser-aqui-e-agora. Exige uma Transformação naquilo que hoje designamos por «Ser-Humano». Era preciso estar lá, nesse lugar-transformado, ao qual ainda não chegámos. Sermos isso que ainda não somos. Ora isso é impossível antes. Logo, não se pode pronunciar daí, desse lugar que ainda não nos aconteceu. Apenas imaginando-o o podemos conceber, mas isso não é automaticamente termos conseguido transformarmo-nos” (http://ml.ci.uc.pt/mhonarchive/museum/pdftQNWUNa7O1.pdf).

Ora explorar o futuro a partir do presente, ainda que esse futuro seja impronunciável, existe a tentação dos sábios de hoje o nomearem, de proclamarem aos 4 ventos os novos mundos e as auroras que o cantam. São os arautos da modernidade. Os cultores do espetáculo que prescrevem roteiros. Esse é o erro das academias e das ciências das regularidades.

Hoje, as culturas “universitárias”, que buscam a complexidade nas mutações probabilísticas, na construção de modelos incertos e caóticos, exigem uma outra cultura. Uma cultura de crescimento do pensamento crítico. Uma cultura de autonomia do sujeito.

Não é que esta sociedade do espetáculo, na era do pós-covid, não tenha condições para deixar de existir. Existirá certamente, tal como continuarão a existir muitas formas de alienação do ser e da forma.

O que estamos convictos é que este novo tempo que vivemos, de transformação, exige uma cultura de crescimento da autonomia do sujeito. Uma cultura fundada no pensamento crítico. Ou seja: a cultura portuguesa só sobreviverá nessa transformação se for crítica e autónoma.

Seremos capazes de nos reinventarmos como cultura? Se sim, esse será provavelmente o nosso novo lugar no tempo.