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Vinhos: Museologia e Globalização VI

Teste práticos de degustação do vinho

A proposta deste atividade é treinar a capacidade de discussão dobre as sensações dos odores e paladares que são individualmente experimentados

Atividade 1 – Teste da supresão

Os componentes do vinho são responsáveis pelo seu sabor e sensações físicas que produzem podem resultar em interações entre várias sensações o que permite o que se chama a supressão do vinho. A atividade seguinte destina-se a entender o conceito de superssão.

Exemplo

1. Dissolver uma colher de açúcar num copo de água.

2. De seguida adicionar umas gotas de limão num copo

3. Dissolver uma colher de açucar num compo de água e de seguida adicionar uma gotas de limão

Saborear cada um dos copos e anotar os níveis de doçura e acidez de cada.

  • Qual é o mais doçe. O 1 ou o 3?
  • O nível de acidez do 2 é maior ou igual a 3?

Atividade 2 – Compreender a adstringência

Fazer um bule chá preto forte e deixar arrefecer.

De seguida provar: A sensação de rugosidade e secura da língua é produzida pela reação aos componentes fenólicos que o chá deixa e é chamada a adstringência.

Colocar o chá em 3 copos. No primeiro adicione 1 colher de açucar. No segundo um colher de chá de sumo de limão. Finalmente no terceiro, junte uma colhe de chá de açúcar e outra de sumo de limão.

Saboreie e compare os níveis de adstringência:

  • Qual é mais adstringente?
  • Qual é menos adstringente?

Com base nas perceções, como é que o enólogo consegue mascara o excess de adstringências no vinho?

Vinhos: Museologia e Globalização V

1.3.3. Saborear e desfrutar paladares

A última e decisiva prova é saborear o vinho e apreciar os seus balanços. Para provar, não é necessário um copo cheio. Basta um gole, para tirar as medidas ao vinho. Dá-se um pequeno gole e passeia-se vinho na boca só o tempo necessário para sentir o seu sabor espalhado pela boca. Engulir unum pequeno gole permite avaliar a evolução dos sabores e o que fica na boca. É tempo de fechar a avaliação

Enquanto o olfato avalia as contribuições sensoriais dos componentes voláteis do vinho, o sabor avalia os constituintes não voláteis responsáveis pela doçura, acidez, salinidade e acidez do vinho, bem como as sensações táteis, como corpo, adstringência e calor.

O nosso principal órgão gustativo é a língua. A língua é coberta por áreas elevadas chamadas papilas, que contêm nossas papilas gustativas. As papilas gustativas adicionais também podem ser encontradas no céu-da-boca, na epiglote e no esôfago.

As células recetoras dentro de cada papila gustativa são responsáveis por detetar a presença de substâncias e sensações gustativas. Essas interações causam atividade elétrica, que é subsequentemente transmitida ao cérebro para processamento de maneira semelhante à do sistema olfativo. Os principais componentes do vinho, responsáveis pelos sabores básicos do vinho, são os açúcares e, em menor medida o etanol, para a doçura do vinho; os ácidos para a solidez do vinho, compostos fenólicos para regular a amargura; e sais de minerais ou ácidos para salinidade, embora seja raro um vinho ser percebido como salgado. Muitas dessas substâncias também provocam sensações físicas de bem-estar ou mal-estar.

O corpo e paladar de um vinho estão intimamente associados ao seu teor de álcool. Mas o álcool também pode produzir calor e doçura no paladar. O teor de álcool pode ser observado pela viscosidade no copo. Portanto o corpo do vinho é diretamente influenciados pela concentração de açúcares.

Os compostos fenólicos são responsáveis pela sensação de ressecamento e enrugamento conhecida como adstringência. Essas sensações táteis são o resultado de interações químicas entre taninos, uma subclasse de compostos fenólicos e das proteínas com a saliva. Esse processo seca aboca e aumento da fricção da língua (língua áspera) o que é percecionado pelos recetora de toque localizados em toda a boca. Alguns taninos são suaves e aveludados, mas alguns são curtos e ásperos. Essas sensações táteis contribuem para a sensação geral na boca de um vinho.

Nalguns casos, a presença de gases como dióxido de carbono ou dióxido de enxofre também pode estimular sensações corporais. Formigamento ou borrifo, no caso do dióxido de carbono, e irritação na garganta, no caso do dióxido de enxofre. Individualmente, o paladar e as sensações corporais associadas aos diferentes componentes não voláteis do vinho são facilmente discernidas.

Mas, face à presença de várias componentes, nós, seres humanos, somos influenciados pela perceção do que ais gostamos e pela presença de todos os outros no seu conjunto. Tal como acontece com o olfato, a principal interação entre os componentes do sabor é a supressão.

Portanto, uma capacidade importante na produção de vinho é a capacidade de alcançar o equilíbrio num vinho. Por exemplo, a possibilidade de anular a acidez e o doce em excesso para obter um vinho fresco e saboroso.

As sensações do paladar também podem aumentar as sensações físicas. Estás demonstrado que o aumento da acidez aumenta nossa perceção de adstringência, enquanto o aumento do etanol pode aumentar não apenas aamargura, mas também o calor do vinho.

A capacidade de discernir gostos diferentes é um exercício sensorial objetivo e pode ser aprendido com alguma prática.

De seguida faremos alguns exercícios de sabores básicos e procuramos fazer um exercício de interatividade.

VINHOS- Museologia e Globalização – IV

Aromas e cheiros

Se na apreciação da cor e da luminosidade os olhos fazem uma leitura preliminar, é agora tempo de mobilizar o seu aroma. O olfato permite-nos capturar o carácter do vinho. Para apreciar o aroma vínico basta agitar o copo para libertar os seus aromas. Cheire o copo por alguns instantes. Um bom vinho é libertador, um cheiro a mogo, rolha ou vinagre é sinónimo de vinho estragado ou zurrapa. Para apreciar o aroma é necessário algum treino.

O aroma e o sabor do vinho resultam da presença dos chamados compostos voláteis, que são constituintes do vinho que se movem facilmente da fase líquida do vinho para a fase gasosa ou espaço superior acima do vinho que se sente no copo.

Podemos detetar esse elementos voláteis diretamente pelo nariz como aroma quando sentimos o cheiro do vinho, ou na boca quando o vinho é degustado[PPL1] . O aroma sente-se no cheiro e o sabor na língua. No entanto, entre cheiro e sabor existe uma apriximação na passagem retro nasal como sabor, onde o cheiro se junta ao sabor.

O sistema olfativo é responsável pelo sentido do olfato. É composto pelo epitélio olfatório, localizado na parte posterior da passagem nasal, que deteta a presença de compostos voláteis, o bolbo olfatório, que processa as informações recebidas do epitélio e de partes superiores do cérebro, que decodificam essas informações para permitir o odor reconhecimento e perceção.

A contribuição de diferentes compostos voláteis para o aroma do vinho tem sido objeto de extensas investigações na atualidade. Várisa centenas de compostos voláteis individuais já foram identificados no vinho, cada um originado de várias vias diferentes, o que mostra a complexidade do vinho. Muitos dos compostos voláteis presentes no vinho são derivados da uva e frequentemente são responsáveis pelo caráter varietal de uvas específicas.

Por exemplo, as notas florais e cítricas de um Riesling são distintamente diferentes das notas tropicais e vegetais de um Sauvignon blanc, porque as uvas dessas variedades acumulam diferentes compostos voláteis. Muitos compostos voláteis derivados da uva são conhecidos por se acumularem em formas precursoras. Ou seja, eles estão ligados a uma ou mais unidades de açúcar ou como conjugados de aminoácidos.

Durante a fermentação, esses precursores podem ser metabolizados por leveduras de vinificação ou enzimas, que liberam os compostos voláteis no vinho. Por exemplo, a liberação de geraniol de seu precursor glucopiranosídeo para dar um aroma floral, ou a liberação de 3-mercaptohexanol de seu conjugado de cisteína para dar uma nota cítrica.

Vinhos fermentados ou maturados em barris de carvalho também podem extrair compostos voláteis derivados do carvalho. Por exemplo, latona de carvalho, guaiacol, eugenol e baunilha, que conferem aromas e sabores de coco, fumado, cravo e baunilha, respetivamente.

Os compostos voláteis também podem ser formados por meio de transformações químicas que ocorrem durante o envelhecimento e armazenamento. O melhor exemplo é o TDN, 1, 1, 6-trimetil 1, 2-di-hidronaftaleno, que dá a nota característica de querosene em um Riesling envelhecido. É importante notar que das centenas de compostos voláteis que foram identificados no vinho, muitos realmente exibem pouco ou nenhum aroma.

Na verdade, apenas um número relativamente pequeno de voláteis influenciam de forma apreciável o aroma e o sabor do vinho, e são considerados mais importantes do ponto de vista sensorial e de qualidade do vinho.

A intensidade do aroma de um determinado composto volátil depende de sua concentração no vinho, de sua volatilidade – isto é, com que rapidez ele se move da fase líquida para a fase gasosa – e de seu valor de atividade de odor, ou OAV. O limite de deteção de um composto volátil é a concentração mínima na qual ele pode ser detetado. Em comparação, um limite de reconhecimento é a concentração na qual um volátil pode ser detetado e identificado.

Se um composto volátil ocorre em um vinho em uma concentração que excede em muito seu limite de deteção, é provável que faça uma contribuição significativa para o aroma do vinho.

No entanto, em concentrações subliminares, é improvável que os compostos voláteis tenham um impacto direto no aroma do vinho. O valor da atividade do odor, ou OAV, foi concebido como uma medida da importância sensorial de um composto volátil e é calculado como a proporção da concentração de um composto volátil em relação ao seu limite de deteção.

Apesar de ser o mais abundante dos compostos voláteis listados, é improvável que o hexanol contribua com qualquer aroma notável de grama cortada, uma vez que tem um alto limiar de deteção e um OAV de menos de um.

Em contraste, hexanoato de etila e acetato de 3-metilbutila, que também estão presentes em altas concentrações, têm limiares baixos, resultando em OAVs muito altos.

Portanto, seria de se esperar que esses compostos contribuíssem com atributos aparentes de maçã verde e banana, respetivamente.

Podemos encontrar esses ésteres em estilos de vinho baseados em frutas, como Riesling ou Sauvignon blanc. Embora a damascenona e a ionona sejam transportadas em concentrações extremamente baixas, ambas são compostos de aroma potentes com limiares de detecção muito baixos e, como tal, têm OAVs muito maiores do que um, portanto, também se espera que façam contribuições importantes para o aroma do vinho.

Os enólogos frequentemente tentam prever o aroma e o sabor com base na composição volátil do vinho, e isso é um desafio dfe compreender à complexidade das interações entre os diferentes componentes do vinho. Por exemplo, compostos voláteis frequentemente mascaram ou suprimem uns aos outros em graus variados e imprevisíveis.

É também importante notar que pode haver uma variação significativa na nossa sensibilidade aos diferentes aromas e sabores do vinho. A pesquisa sugere que uma em cada cinco pessoas luta para detetar rotundone, o composto volátil responsável pelo aroma de pimenta preta detetado em alguns vinhos Shiraz.


 [PPL1]

Almenxar

Nas antigas linguagens do Sul, nos tempos em que ao al-Gahb vivia do comércio dos figos e amêndoas, as casas rurais tinham o seu Almanxar, almeixar, alminxar ou “almenxaire. O sítio onde medram os figos e as amêndoas e as alfarrobas, a trilogia da agricultura do extremo sudueste peninsular. Almeixar vem do árabe “al-manxar”

Para além de servir para curtir a fruta, é também sinónimo de tempos dem que se vivía dos recursos endógenos. Recurso que tinham na alimentação uma boa parte da sua preocupação.

Sete petiscos para uma década

. Estupeta de atum

.Bruschetta de carpaccio de carne de vaca com alcaparras, queijo de cabr com doce de amêndoa e salmão com coentros

.Tábua de pão caseiro com polvo em coentros

. Tábua de queijos frescos de cabra

. Mexilhão com tomatada

.Tomatada com obos em pão rustiicoi

. Cogumelos recheados

Suão

Suão ou sueste é vento quente que sopra das areias do grande deserto do Sahara. Anuncia-se através de uma nuvem de poeira que se levanta dos lados nascente, encapelando o mar, na costa algarvia. Ondas quentes de três a cinco metros que se arremessam com fúria sobre o areal. Simultaneamente uma humidade pegajosa toma conta do corpo.

Nos dias de sueste, encobertos e encaracolados há pouco para se fazer. Saborear e observar as mudanças. Esperar por melhores dias para a praia. Consertar algumas coisas que ficaram para trás. E talvez provar um bom vinho Merlot.

O suão transporta uma massa de ar quente e seca que atrai chuva. No sul o povo diz os seguintes provérbios sobre o vento suão:

“O vento suão cria palha e pão”.

“Vento suão, chuva na mão: de inverno sim, de verão não”

II – Nortada

Vento de Noroeste ou nortadas. Diz-se entre os habitantes do litoral estremenho, que “primeiro de agosto, primeiro de inverno!” Trata-se dum vento frio, que na costa ocidental da Península, sopra do Norte e Noroeste. Os cientistas justificam o vento como um exemplo da chamada Força de Coriolis, um experiencia que o pendulo de Foucault demonstra.

Pseudoforças de Coriolis é centrífuga. Na física é uma pseudoforça, uma força inercial que equilibra a dinâmica circular (duma “força” centrífuga) em relação a um determinado ângulo. Depende da velocidade do corpo em relação ao eixo de rotação. “ Pode-se assim dizer que a pseudoforça centrífuga é o componente estático da força inercial que se manifesta no referencial em rotação enquanto que a pseudoforça de Coriolis é o componente dinâmico.” Diz a Wilkipedia

Nortada nos Arrifes da Coelha

Ela explica os movimentos das massas de ar na superfície terreste, neste caso na origem dos ventos de nortada, que são predominantes com a deslocação mais para sul do anticiclone dos Açores a partir de meados do verão.

O vento de norte torna-se portante dominante até ao final da primavera seguinte. São ventos que são, de um modo geral constantes e que facilitaram as navegações de cabotagem à vela de norte para sul, e por consequência, obrigavam a navegação à bolina no sentido inverso.

Programação Cultural IV: Entre festas ou alta cultura?

De onde vieram os profissionais da programação cultural nos anos 90 e em que escolas foram formados foi a interrogação que deixamos no último postal.

Ao olharmos para o perfil da formação dos atuais programadores culturais, por exemplo no Politécnico de Leiria (https://www.ipleiria.pt/cursos/course/licenciatura-em-programacao-e-producao-cultural/), podemos observar que se trata uma formação multidisciplinar, eclética com uma extensa prática, seja em estágio, seja em laboratório. Multidisciplinar porque envolve as áreas da economia, do património, do urbanismo, das artes, da educação, da ciência política e direito, e comunicação. Prática porque envolve o desenvolvimento de laboratórios experimentais, oficinas de mediação, curadoria e exposições.

No passado uma boa parte das pessoas que chegaram à programação cultural vieram do campo dos Estudos Culturais, da Animação cultural, e de uma forma geral da intervenção cultural na sociedade. Com as políticas públicas da cultura, seja ao nível do Estado Central seja ao nível municipal, estres profissionais passaram a ter acesso, por exemplo a financiamentos públicos, o que obriga a conhecer as ferramentas de elaboração e gestão de projetos.

Embora não exista, em Portugal um Plano Nacional de Cultura, existe no campo dos financiamentos comunitários um Programa Operacional para a Cultura, onde se alocam cerca de 350 milhões de Euros (250 milhões como contribuição comunitária). Um valor que implica negociação, conhecimento de legislação e capacidade de desenvolver projetos. Vaz portanto algum sentido a oferta formativa.

Mas regressando à questão das origens dos primeiros profissionais, vale a pena pensar nas escolas que se formaram e nas tradições que deram origem. Já em outros postais abordamos alguma experiencias que surgiram após 1974 até a institucionalização da profissão, que situamos na marca simbólica da Expo 98. Este foi uma data chave para entender o processo de internacionalização de uma geração de profissionais, que ultrapassaram as experiencias domésticas e iniciaram diálogos com outras realidades na Europa e no Mundo (em especial com Africa).

Alguns movimentos, como por exemplo o Movimento Alfa, em 1975 levou, com apoio do Inatel a criação de vários monitores de alfabetização, animação cultural e animação desportiva. Alguns desses monitores acabaram por continuar a praticar a “dinamização cultural” como então se chamava essa atividade. Um caso paradigmático será a experiencia levada a cabo no Algarve, com a associação InLoco, que durante vários meses desenvolveu um projeto de “desenvolvimento rural” com base na busca dos recursos culturais endógenos. Foi então oferecido um programa de formação de animadores socio-culturais. Com o final do projeto, muitos desses profissionais ingressar 9nos quadros das autarquias da região, já na época com um forte desenvolvimento turístico. O turismo, e em particular a chamada “animação turística” será uma atividade que permitirá o desenvolvimento de vários profissionais da cultura, não apenas de músicos e atores, mas também destes programadores para organização dos “eventos”.

Um caso que também vale a pena referir é o do centro cultural da  “Mala Posta” (https://malaposta.pt/). Nos anos nov9enta, várias autarquias da região de Lisboa, (Amadora, Loures, Vila Franca de Xira e mais tarde Odivelas), reúnem-se neste centro cultural, que se instala numa antigo armazém dos correios na periferia de Lisboa, e desenvolvem um interessante projetos de intervenção cultural, in situo e nos vários municípios, através de equipas de monitores. A formação destes monitores, irá alimentar o desenvolvimento das necessidades de profissionais para festa, eventos e atividades culturais, que a crescente intervenção municipal vai suscitar nos anos 90.

Quando se concretiza a Expo 98, que desenvolve um programa cultural de animação, já existem vários profissionais, que a partir dessa data, alguns deles se internacionalizam, outros que aceitam novos desafios em diferentes zonas do país.

Pelas terras da Beira (sinais de Viriato e dos Lusitanos)

Fazia alguns anos que andava para rever Idanha-a-Velha. Talvez há mais de 30 anos que por lá não passava, incluindo as terras raianas de Monsanto. Nos idos de 90 lembro-me de ter assistido à criação do Projeto Aldeias Históricas de Portugal, de que Idanha fazia parte, juntamente com Monsanto e Sortelha.

Sortelha era na altura uma vila encastelada, pobre e arruinada, com inúmeras casas à venda. Ao contrário de Monsanto, que tinha sido galardoada com o título da “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, no célebre concurso engendrado em 1938 por António Ferro e o sei Secretariado Nacional de Propaganda. Ser segundo fez toda a diferença, levando para a concorrente os fluxos turísticos, então ainda frágeis, mas que permitiram alimentar um economia de serviços, valorizar o imobiliário, restauração e artesanato e até permitiu o desenvolvimento da cultura local, das cantadeiras de adufe a alguma pesquisa sobre o cancioneiro da Beira Baixa.

Regressando às terras de Idanha-a-Velha, alvo de relevantes obras de requalificação da muralha pela DGPC, em tempos de pós-Covid, assemelhou-se a uma visita a uma aldeia fantasma. Alguns habitantes locais em redor da amoreira centenária. Uma loja de artesanato, gerida pelo dono do café, vende roteiros, mel e vinhos locais. O mais surpreende é o imenso palácio Marrocos, implantado no meio da aldeia, em espaço sobranceiro, às ruinas do antigo paço episcopal. Um exemplo de que as megalomanias são intemporais. Tal como o centro de interpretação numa aldeia com 69 habitantes, que vivem do fulgor cultural do passado.

E sobre os Lusitanos. É naturalmente pouco provável que Viriato por ali tenha passado. A aldeia-vila romana, situada na rota entre Mérida e a Guarda. Mas em Monsanto a imagética do guerreiro rebelde que enfrentou os romanos está bem presente.

Viriato e os Lusitanos constituem um poderoso símbolo identitário. Mítico em grande parte, idolatrado como figura fundadora duma proto-nacionalidade. A sua rebeldia contra os romanos será provavelmente a razão da sua menor expressão no panteão nacional. O Estado Novo não terá visto com bons olhos a celebração dum herói guerrilheiro, cuja memória radica na revolta contra a ordem romana. No panteão nacional, celebraram-se sobretudo as gesta dos navegadores que “por mares nunca antes navegados, novos mundos deram ao mundo”.

Ainda assim, como herói menor, foi celebrado no século XIX, como chefe que foi dessa tribo dos lusitanos. E Lusitanos, é o povo redescoberto no renascimento, que Camões canta da sua monumental obra épica. Canta a sua rebeldia contra a civilização romana, cuja influencia, tendo acaba por vingar na língua e na civilização, lhe adiciona o ímpeto insurrecional, criativo, irrequieto, que fará dos portuguese um dos filhos do lácio.

Caída Roma, a sua influência multiplicou-se através dessas recriações. O curioso destas tensões é saber como celebrar essa excentricidade. Ante dos romanos ou como resultado dos romanos, quando se recria uma nova nação, que muitos ainda pensam como destinada a uma qualquer redenção.

Memórias Contestadas

Neste tempos que correm , numa sociedade que está em transformação acelerada as memórias estão sobre contestação.

Memórias do Império colonial estão sob confrontação por via de olhares plurais. Não é nada de novo. Já no nosso tempo, mais a leste, os nossos “amigos” eslavos e magiares enfrentaram um novo tempo, com a consequente rejeição das memórias até aí predominantes.

O que fizeram com a estatuária. Recolheram-na e hoje é um parque temático.

http://www.mementopark.hu/?Lang=en

Sempre é menos violento do que propõem os iconoclastas contemporâneos. O problema é que essa radicalidade emerge hoje nas universidades, por via de professores que não conhecem a realidade do mundo, fora dos livros que lêem.

Em baixo algumas memórias contestadas no Cáucaso

XXVIII– Porto Seguro

Contava no postal de ontem duas história de linhas cruzadas. A “arte da Xavega” acabou por desfiar memórias e ocupar o espaço narrativo previsto. Por isso, contamos hoje a segunda história, também ela desafiando as memórias de juventude sobre desacertos na observação do real.

Um bom amigo, escrivão de crónicas mundanas, fez-me chegar as suas memórias do seu confinamento durante a crise do COVID19, com o título “ P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19”.”. Na sua introdução discute a o livro de Joseph Conrad “Tufão e outras história ” publicado pela editora Difel, 1989. Tufão é um livro de 1902.

Segundo Teixeira esta obra, insere-se no tema da transição. A experiencia narrativa, do marinheiro, retrata um momento em que a vleha arte de navegar à vela é substituída pela mecânica da indústria e do sistema que a gerou. Mais do que outras considerações que se possam tomar, este momento de mutação, entre um mundo antigo, que dialoga com a natureza, interroga os elementos e estuda as possibilidades de ação, e o mundo moderno do “projeto” digamos assim para simplificar.

Na história narrada o tal comandante MacWhirr, insensível ao tufão que se aproximava e aconselhava um desvio da rota por mares mais calmos, insiste na confiança da tecnologia suportada pela necessidade de maximizar os proveitos e racionalizar os recursos. Na senda da escrita de Conrad, a narrativa explora o conflito entre essa modernidade que confia na tecnologia e desaconselha o senso comum, apresenta os resultado dos frangalhos das ações, que ainda que possam ser sucesso, resultam em tragédias humanas

Encontrei Conrad e a sua escrita nos anos oitenta por via do filme Apocalipse Now de Coopola . Entre as várias atividade que enquanto jovem estudante me dedicava, por forte influência paternal, era ao cinema. Em regra à noite frequentava a Cinemateca Nacional, na Rua Barata Salgueiro em Lisboa. Na altura (e penso que ainda acontece) faziam ciclos autorais. Na altura João Bernard, o diretor, tinha o cuidado de produzir uma “folha de sala”, com as principais informações sobre o filme. Antes da projeção fazia-se uma pequena resenha biográfica do autora e do peça fílmica no conjunto da obra. No final do filme, reserva-se cerca de meia hora para o debate.

Este e outros filmes davam posteriormente origem a acesas reflexões filosóficas no círculo de amigos, muitas vezes feitas em longas caminhadas noturnas pela cidade.

Dizia que encontrei Conrad, através deste filme. Ainda que a narrativa de Coppola se tenha afastado da do livro de Conrad, a subida do Rio (Congo) passando por diversas aldeias, em contexto de mudança. O tema do fim de um tempo ou a questão do fim do mundo produzido pela transformação (neste caso através do contato com a “civilização” metaforicamente simbolizada pelo Barco que subindo o rio ia ligando em rede os diversos portos). No caso do filme a questão da guerra do Vietnam, com os seus momentos absurdos, com as pequenas humanidades que assumem formas exageradas foi  uma narrativa poderosa. A questão das viagens e as transformações (ou não) que produzem em cada um, foi tema que fui seguindo, Viagens individuas, viagens coletivas, que foram por diversas maneiras influenciando os caminhos criativos.

A imagem fílmica de Coppola na minha geração foi forte. Um amigo escreveu um livro inspirado no tema –Apocalispe Na).  Eu recordo-me mais tarde, pelos anos noventa, ter visitado numa praia de Alto Chavon em Santo Domingo, a prais onde tinha sido filmada uma das célebres cenas do filme, o ataque com bombas napalm, ao som das Valquírias, com o objetivo do lunático Tenente-coronel fazer surf naquelas que eram consideradas, na narrativa fílmica, as melhores ondas da Indochina. O absurdo entre a destruição de vidas humanas e da natureza por um objetivo tão prosaico, era então evidente.

A questão que então debatíamos, e que mais tarde se foi desenvolvendo era sobre o acaso. De como várias variáveis independentes, num dado momento, se cruzavam. Neste caso, vaiáveis feitas de valores e desejos absurdos, que se cruzam com rotinas estáveis de territórios dotados de pureza e inocência. É claro que nem sempre esses espaços e essas comunidades não eram lugares de pura inocência nem nele habitavam cândidos. Este tipo de narrativas, como a de Conrad, mostravam momentos de tensão entre mudos que se encontravam e desencontravam. Narrativas sobre desacertos.