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Gonçalo Ribeiro Teles e a Paisagem

Sobre a Casa dos Vinte e Quatro em Lisboa a a paisagem de Lisboa em Encontos do Património

Ideias

.Unidades de Paisagem –

.Colocar a paisagem em contexto e em relação

.Olhar o outro para integrar

.A paisagem como construção no tempo e no espaçao

As paisagens com história. Como é que a paisagem se constroi a partir das dinâmicas do território.

in Museu da Paisagem
“O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante, pode ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza. Toda a atividade humana tem como fim a satisfação das suas necessidades, quer espirituais, quer materiais. (…) A paisagem terá de ser considerada como um todo orgânico e biológico em que cada elemento é interdependente, influenciando e sofrendo da presença dos restantes participantes. A reciprocidade é a lei fundamental da natureza. Cada geração tem uma parcela relativamente pequena na construção duma paisagem, podendo, no entanto, ter um papel profundo na distribuição do equilíbrio geral.” in Ribeiro Telles G. (2011), Textos escolhidos. Argumentum, Lisboa

“A compreensão da paisagem é indispensável para nela se poder actuar, e nessa compreensão há que entender o relacionamento entre os diferentes que a compõem e o seu comportamento. O funcionamento global da paisagem, em cada momento, traduz-se sempre pela procura dum equilíbrio dinâmico e duma estabilidade temporal. A acção do homem poderá então determinar um caminho mais consentâneo com os os seus interesses no sentido da diversidade biológica e dum maior potencial genético e de vida.” in Caldeira Cabral F., Ribeiro Teles G. (1999), A árvore em Portugal. Assírio e Alvim, Lisboa.

Vinhos: Museologia e Globalização V

1.3.3. Saborear e desfrutar paladares

A última e decisiva prova é saborear o vinho e apreciar os seus balanços. Para provar, não é necessário um copo cheio. Basta um gole, para tirar as medidas ao vinho. Dá-se um pequeno gole e passeia-se vinho na boca só o tempo necessário para sentir o seu sabor espalhado pela boca. Engulir unum pequeno gole permite avaliar a evolução dos sabores e o que fica na boca. É tempo de fechar a avaliação

Enquanto o olfato avalia as contribuições sensoriais dos componentes voláteis do vinho, o sabor avalia os constituintes não voláteis responsáveis pela doçura, acidez, salinidade e acidez do vinho, bem como as sensações táteis, como corpo, adstringência e calor.

O nosso principal órgão gustativo é a língua. A língua é coberta por áreas elevadas chamadas papilas, que contêm nossas papilas gustativas. As papilas gustativas adicionais também podem ser encontradas no céu-da-boca, na epiglote e no esôfago.

As células recetoras dentro de cada papila gustativa são responsáveis por detetar a presença de substâncias e sensações gustativas. Essas interações causam atividade elétrica, que é subsequentemente transmitida ao cérebro para processamento de maneira semelhante à do sistema olfativo. Os principais componentes do vinho, responsáveis pelos sabores básicos do vinho, são os açúcares e, em menor medida o etanol, para a doçura do vinho; os ácidos para a solidez do vinho, compostos fenólicos para regular a amargura; e sais de minerais ou ácidos para salinidade, embora seja raro um vinho ser percebido como salgado. Muitas dessas substâncias também provocam sensações físicas de bem-estar ou mal-estar.

O corpo e paladar de um vinho estão intimamente associados ao seu teor de álcool. Mas o álcool também pode produzir calor e doçura no paladar. O teor de álcool pode ser observado pela viscosidade no copo. Portanto o corpo do vinho é diretamente influenciados pela concentração de açúcares.

Os compostos fenólicos são responsáveis pela sensação de ressecamento e enrugamento conhecida como adstringência. Essas sensações táteis são o resultado de interações químicas entre taninos, uma subclasse de compostos fenólicos e das proteínas com a saliva. Esse processo seca aboca e aumento da fricção da língua (língua áspera) o que é percecionado pelos recetora de toque localizados em toda a boca. Alguns taninos são suaves e aveludados, mas alguns são curtos e ásperos. Essas sensações táteis contribuem para a sensação geral na boca de um vinho.

Nalguns casos, a presença de gases como dióxido de carbono ou dióxido de enxofre também pode estimular sensações corporais. Formigamento ou borrifo, no caso do dióxido de carbono, e irritação na garganta, no caso do dióxido de enxofre. Individualmente, o paladar e as sensações corporais associadas aos diferentes componentes não voláteis do vinho são facilmente discernidas.

Mas, face à presença de várias componentes, nós, seres humanos, somos influenciados pela perceção do que ais gostamos e pela presença de todos os outros no seu conjunto. Tal como acontece com o olfato, a principal interação entre os componentes do sabor é a supressão.

Portanto, uma capacidade importante na produção de vinho é a capacidade de alcançar o equilíbrio num vinho. Por exemplo, a possibilidade de anular a acidez e o doce em excesso para obter um vinho fresco e saboroso.

As sensações do paladar também podem aumentar as sensações físicas. Estás demonstrado que o aumento da acidez aumenta nossa perceção de adstringência, enquanto o aumento do etanol pode aumentar não apenas aamargura, mas também o calor do vinho.

A capacidade de discernir gostos diferentes é um exercício sensorial objetivo e pode ser aprendido com alguma prática.

De seguida faremos alguns exercícios de sabores básicos e procuramos fazer um exercício de interatividade.

VINHOS- Museologia e Globalização – IV

Aromas e cheiros

Se na apreciação da cor e da luminosidade os olhos fazem uma leitura preliminar, é agora tempo de mobilizar o seu aroma. O olfato permite-nos capturar o carácter do vinho. Para apreciar o aroma vínico basta agitar o copo para libertar os seus aromas. Cheire o copo por alguns instantes. Um bom vinho é libertador, um cheiro a mogo, rolha ou vinagre é sinónimo de vinho estragado ou zurrapa. Para apreciar o aroma é necessário algum treino.

O aroma e o sabor do vinho resultam da presença dos chamados compostos voláteis, que são constituintes do vinho que se movem facilmente da fase líquida do vinho para a fase gasosa ou espaço superior acima do vinho que se sente no copo.

Podemos detetar esse elementos voláteis diretamente pelo nariz como aroma quando sentimos o cheiro do vinho, ou na boca quando o vinho é degustado[PPL1] . O aroma sente-se no cheiro e o sabor na língua. No entanto, entre cheiro e sabor existe uma apriximação na passagem retro nasal como sabor, onde o cheiro se junta ao sabor.

O sistema olfativo é responsável pelo sentido do olfato. É composto pelo epitélio olfatório, localizado na parte posterior da passagem nasal, que deteta a presença de compostos voláteis, o bolbo olfatório, que processa as informações recebidas do epitélio e de partes superiores do cérebro, que decodificam essas informações para permitir o odor reconhecimento e perceção.

A contribuição de diferentes compostos voláteis para o aroma do vinho tem sido objeto de extensas investigações na atualidade. Várisa centenas de compostos voláteis individuais já foram identificados no vinho, cada um originado de várias vias diferentes, o que mostra a complexidade do vinho. Muitos dos compostos voláteis presentes no vinho são derivados da uva e frequentemente são responsáveis pelo caráter varietal de uvas específicas.

Por exemplo, as notas florais e cítricas de um Riesling são distintamente diferentes das notas tropicais e vegetais de um Sauvignon blanc, porque as uvas dessas variedades acumulam diferentes compostos voláteis. Muitos compostos voláteis derivados da uva são conhecidos por se acumularem em formas precursoras. Ou seja, eles estão ligados a uma ou mais unidades de açúcar ou como conjugados de aminoácidos.

Durante a fermentação, esses precursores podem ser metabolizados por leveduras de vinificação ou enzimas, que liberam os compostos voláteis no vinho. Por exemplo, a liberação de geraniol de seu precursor glucopiranosídeo para dar um aroma floral, ou a liberação de 3-mercaptohexanol de seu conjugado de cisteína para dar uma nota cítrica.

Vinhos fermentados ou maturados em barris de carvalho também podem extrair compostos voláteis derivados do carvalho. Por exemplo, latona de carvalho, guaiacol, eugenol e baunilha, que conferem aromas e sabores de coco, fumado, cravo e baunilha, respetivamente.

Os compostos voláteis também podem ser formados por meio de transformações químicas que ocorrem durante o envelhecimento e armazenamento. O melhor exemplo é o TDN, 1, 1, 6-trimetil 1, 2-di-hidronaftaleno, que dá a nota característica de querosene em um Riesling envelhecido. É importante notar que das centenas de compostos voláteis que foram identificados no vinho, muitos realmente exibem pouco ou nenhum aroma.

Na verdade, apenas um número relativamente pequeno de voláteis influenciam de forma apreciável o aroma e o sabor do vinho, e são considerados mais importantes do ponto de vista sensorial e de qualidade do vinho.

A intensidade do aroma de um determinado composto volátil depende de sua concentração no vinho, de sua volatilidade – isto é, com que rapidez ele se move da fase líquida para a fase gasosa – e de seu valor de atividade de odor, ou OAV. O limite de deteção de um composto volátil é a concentração mínima na qual ele pode ser detetado. Em comparação, um limite de reconhecimento é a concentração na qual um volátil pode ser detetado e identificado.

Se um composto volátil ocorre em um vinho em uma concentração que excede em muito seu limite de deteção, é provável que faça uma contribuição significativa para o aroma do vinho.

No entanto, em concentrações subliminares, é improvável que os compostos voláteis tenham um impacto direto no aroma do vinho. O valor da atividade do odor, ou OAV, foi concebido como uma medida da importância sensorial de um composto volátil e é calculado como a proporção da concentração de um composto volátil em relação ao seu limite de deteção.

Apesar de ser o mais abundante dos compostos voláteis listados, é improvável que o hexanol contribua com qualquer aroma notável de grama cortada, uma vez que tem um alto limiar de deteção e um OAV de menos de um.

Em contraste, hexanoato de etila e acetato de 3-metilbutila, que também estão presentes em altas concentrações, têm limiares baixos, resultando em OAVs muito altos.

Portanto, seria de se esperar que esses compostos contribuíssem com atributos aparentes de maçã verde e banana, respetivamente.

Podemos encontrar esses ésteres em estilos de vinho baseados em frutas, como Riesling ou Sauvignon blanc. Embora a damascenona e a ionona sejam transportadas em concentrações extremamente baixas, ambas são compostos de aroma potentes com limiares de detecção muito baixos e, como tal, têm OAVs muito maiores do que um, portanto, também se espera que façam contribuições importantes para o aroma do vinho.

Os enólogos frequentemente tentam prever o aroma e o sabor com base na composição volátil do vinho, e isso é um desafio dfe compreender à complexidade das interações entre os diferentes componentes do vinho. Por exemplo, compostos voláteis frequentemente mascaram ou suprimem uns aos outros em graus variados e imprevisíveis.

É também importante notar que pode haver uma variação significativa na nossa sensibilidade aos diferentes aromas e sabores do vinho. A pesquisa sugere que uma em cada cinco pessoas luta para detetar rotundone, o composto volátil responsável pelo aroma de pimenta preta detetado em alguns vinhos Shiraz.


 [PPL1]

Os equívocos de Luís Raposo no “Arte Capital”

Tenho por Luís Raposo uma elevada estima e reconheço o seu contributo para a museologia portuguesa (talvez deva dizer para a causa dos museus portugueses).

Num artigo recentemente publicado na Arte Capital  apresenta, quanto a mim dois equívocos e uma constatação, que se não me engano são motivadas pelo recente “procedimento concursal” para diretores de museus que a nova lei da autonomia dos museus prevê.

O primeiro equívoco é confundir museologia com museu. Se Museu é uma organização social, o estudo do que lá acontece (os seus fenómenos e relações) ou que lhe são específicos justificam a sua “ciência”, ou não são específicos e portanto serão uma “técnica” ou outra coisa que lhe queiram nomear. Como grandezas diferentes que são não são comparáveis.

Fazer isso é pensar que a medicina é igual ao hospital, a escola é a educação, ou a prisão é a justiça, ou que a biblioteca é um depósito de livros.

O segundo equívoco, tem a ver com a questão da relação com os valores dos objetos. Por princípio, os objetos dos museus sendo de elevado valor simbólico, não se constituem como objetos de mercado. Embora no passado tivesse havido museus onde se vendiam objetos (no século XIX era vulgar um museu ser um espaço comercial), há hoje um consenso bastante alargado sobre a natureza das organizações museológicas (sobretudo públicas) de que o seu objeto não prossegue o lucro. Trata-se portante dum fim social.

Mas essa condição não constitui nos dias de hoje um impedimento para pensar as organizações sociais a partir da sua sustentabilidade. E sobretudo pensar a sustentabilidade das organizações públicas.

Ora uma das discussões que hoje se tem sobre a questão da sustentabilidade das organizações sociais implica pensar para alem da dicotomia entre o publico e o privado (ou entre a obrigação do estado de financiar a cultura e a liberdade do empreendoismo cultural trocar bens simbólicos e produtores de bem-estar). Nem tudo é preto e branco, e sobretudo nem tudo tem que ser cinzento. Pode ser, por exemplo, colorido.

Há contudo uma constatação que não posso deixar de estar de acordo com Raposo. As várias formações que existem hoje nas universidades portuguesas são imperfeitas e estão longe de providenciar as necessidades de profissionais nos museus. Museu e Universidade são hoje dois “negócios” diferentes.

Para o bem e para o mal as universidades na sua formação pós-graduada são hoje espaços subordinadas a outras lógicas que não as do serviço público.

Se fosse jovem eu escolheria hoje ir para a “Bussinees School” de Carcavelos em vez da velhinha Faculdade de Letras no Campo Grande.

Estatística do emprego na Cultura (Um retrato imperfeito)

Saiu esta semana, depois dum longo período sem haver informações, uma informação estatística sobre o emprego no setor da cultura.  “NOTA ESTATÍSTICA 01/2020 EMPREGO NO SETOR CULTURAL, numa edição do Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais, do nosso MC:

A crise do COVID deixou um lastro que agora se começam a ser possível analisar. Provavelmente quando se tratou de saber o universo do “trabalhadores da cultura”, deve-se ter verificado qye não existia informação quantificável. Algum responsável terá solicitado informação, e alguém deve ter dado conta que não se sabia precisar a “dimensão do fenómeno” do emprego na cultura. Talvez seja esta aorigem da nota, ou talvez não.

É claro que este tipo de publicações, com base em dados estatísticos, sofrem dum atrasado de anos em relação à realidade. O processo de recolha de informação e tratamento é moroso e complexo. Também sabemos que os retratos que dão, correspondem às perguntas que são feitas e aos modos como fazemos.

Em Portugal, com a crise de 2008 e 2009 (e com a intervenção da Troika em 2011), muita da informação que era recolhida foi suprimida. Algumas instituições da cultura foram reorganizadas, foi extinto o OAC. Por outo lado, o INE manteve a sua política de recolha de dados, em linha com as normas europeias. Por essa razão a informação existe, mas nem sempre será trabalhada para a formulação de políticas públicas criadas a partir da observação do real. Em Portugal é norma este tipo de políticas serem concebidas em gabinetes, não raramente em conluio com “universidades (académicos) do regime”, onde são recrutados os “experts” dos gabinetes. Mas isso será tema para outro postal. O que vale agora acentuar é que em regra o que é conclusivo resulta mais do “desejo de moldar” a realidade ao modelo que existe na cabeça de cada um, do que uma “vontade de observar”.

Regressando à informação atual, segundo esta “Nota”, em Portugal, o perfil de um trabalhador na cultura “corresponde a um homem, detentor de um nível de ensino superior, em regime de trabalho por conta de outrem, desempenhando a sua atividade/profissão cultural a tempo completo e sendo esse o seu único emprego.”

Esta conclusão levanta-me muitas dúvidas. Mas se esses são os dados, não vamos duvidar deles. Mas, como todos sabemos, desde pelo menos os anos noventa do século passado, que o trabalho na cultura está em transformação. Não sou eu que o digo. São as Nações Unidas, através dos seus trabalhos no PNUD sobre a Economia Criativa. Hoje esse é trabalho feito em redes, numa lógica de prestação de serviços, muito criativo e inovador e sobretudo feminino.

Daí algumas das minhas dúvidas. Mas deste trabalho podem-se retirar outras informações interessantes. Por exemplo, apresenta o peso da força de trabalho no “setor” (3,8% na Europa e 3,3, % em Portugal.

Como os programas do PNUD já haviam identificado, este é um “setor” em crescimento (em Portugal terá crescido 23 % nos últimos 5 anos 2012-2018). Isto significa que o seu número rondara cerca de 160.000 pessoas.

Embora em termos médios Portugal esteja, em termos de emprego na cultura ao nível da Bulgária, Roménia e Eslováquia, estes são trabalhadores jovens, com formação superior, que trabalham por conta própria, dedicando à cultura cerca de 75 % do seu tempo de trabalho.

Ora este perfil (que resulta da análise dos dados apresentados) é contraditório com a conclusão do estudo, que no final se apresenta.

Não temos razões para ser optimistas. A dimensão da crise está visível nas ruas da cidade. Depois do desconfinamento basta andar pelos centros de comércio, pelos lugares centrais para entender a dimensão social do problema (ou olhar para o PRODATA ).

Mas como se isso não bastasse, e apesar da abertura dos museus no 18 de Maio, a cultura está longe de se estar em recuperação. Por todo o lado, os festivais continuam cancelados, os concertos condicionados, as salas de espectáculo vazias. Nas praças da cidade não se escutam canções nem se vêem trovadores. Os debates nos cafés são estéreis.

Nos últimos dias voltamos às discussões sobre o futebol (que note-se é o maior fenómeno cultural do nosso tempo, no nosso contexto eurocêntrico), onde se discute acesamente a questão do público nos estádios.

Com menor visibilidade mediática a cultura (nas políticas culturais públicas) enfrenta o mesmo problema. Uma questão essencial para resolver continua a ser a atenção sobre a função da cultura na sociedade, a questão do encontro criativo entre os humanos. Durante os últimos anos, os inquilinos tecnocratas do Palácio da Ajuda tem-se esforçado para desenvolver os serviços na cultura, privilegiando a “oferta” de bens culturais, aproveitando a “onda do turismo”. Dessas políticas resultam uma produção cultural dependente do “espetáculo”. Essa espetacularização continua em crise e não será com dinheiro lançado para cima que se resolverá o problema.

Ora perante as limitações aos espetáculos, seria útil dar visibilidade ao informal. Aos processos e modos de troca entre os humanos autónomos. Mas como essas trocas não são dados estatísticos, tardam a ser entendidas. Tarda a ser entendido como a poesia pode saír para a rua!

E os poetas! De que estão à espera para TOMAR CONTA DAS PRAÇAS ?

XXX- Educação e Autonomia

Tem-se vindo a falar, nas sequência da afirmações do responsável pela pasta da educação em Portugal, que se equaciona a possibilidade de no próximo ano letivo as escolas do país continuarem encerradas, e o chamado ensino continuar a ser feito à distância, isto é através do atual sistema implantado na crise do COVID19, por via das aulas por plataformas digitais.

É certo que a evolução tecnológica tem vindo a permitir uma maior latitude da intervenção das instituições de ensino. Herdeiros dos sistemas de planeamento centralizado, a escola, ou melhor a implementação da universalização do ensino, foi feita com base no território.

Semelhante ao sistemas quadricular, o espaço e a sua população é dividido em unidades, um território educativo, tutelado por uma escola. Como a educação é um direito universal e a escolaridade obrigatório, ao estado cabia desenvolver um ensino publico. Para isso organizou uma rede de equipamentos escolares. A Republica ainda ensaiou a construção de alguns equipamentos, mas será o Estado Novo, na década de 40 e 50 que iniciará o plano de construções escolares para o ensino primário. Escolas feitas a partir dum desenho do arquiteto Raul Lino, a cada região correspondia um tipo de escola. Imagens que ainda hoje surgem na paisagem urbana e rural.

O Liceu era então visto como uma escola urbana para as elites locais. Era um equipamento mais imponente, com uma marca mais intensa na cidade, por vezes rivalizando com as escolas comerciais e indústrias. Já no final do Estado Novo, a chamada reforma do Sistema Educativo de Veiga Simão, levou a uma reorganização do parque escolar, introduzindo um Ensino Preparatório, de dois anos, com uma rede própria. O Ensino universitário, exclusivamente para elites, situava-se nos grandes centros urbanos, instituindo a república as universidade de Lisboa e Porto, que passaram a ombrear com a centenária academia coimbrã, durante várias centúrias centro jesuíta

Com a aventura democrática, o sistema ampliou-se, quer em número de anos, de alunos e de territórios. Novos modelos foram construídos nas periferias das cidades, para satisfazer a procura e a mobilidade da população que nos anos sessenta setenta se torna urbana e industrial.

Recentemente, durante o consulado de Sócrates e da Maria de Lourdes Rodrigues, foram criados no território nacional, os Agrupamentos Escolares, cuja ideia foi “racionalizar” a gestão das escolas. Embora a intervenção destes governantes tenha ficado conhecida pela intervenção no “parque escolar” , um ambicioso plano de reabilitação de edifícios escolares, a reforma também formalizou as áreas de influência das escolas.

Todas estas intervenções no sistema educativo mantiveram a ligação duma população um território. Cada agrupamento deveria satisfazer as necessidades de acesso dos jovens nesse território. Nas escolas do primeiro ciclo mais pequenas, por isso mais numerosas, e mais próximas dos espaços residências, nas cidades; enquanto nos centros urbanos de média dimensão, no interior do país, se criaram megas complexos educativos, por contrapartida dos encerramentos das redes de escolas das aldeias, questão que durante muito tempo foi discutido a propósito da questão da desertificação.

Ora este modelo colapsou na crise do COVID 19. O sistema do ensino On Line que os substitui falhou também. Será fácil encontrar razões para tal. A incapacidade de planeamento e o desconhecimento das coisas básicas da relação educativa.

E como tudo falhou, prepara-se uma repetição para o próximo ano letivo. Não se trata de desconhecimento ou de incompetência. Trata-se duma agenda que tem um objetivo preciso. A rosão do ensino público está aí, perante a cumplicidade de todos.

E o que é que esta questão tem a ver com a cultura. É que a lógica vai ser a mesma. É certo que os museus abriram (ou estão a abrir). Uma boa parte por pressão das organizações de profissionais, de onde se destaca, neste caso concreto a APOM.

A cultura mantem-se em crise e as discussões dos atores dos museus continuam as velhas polémicas, cuja relevância talvez sejam duvidosas, criadas no tempo anterior ao COVID.

O que a situação me tem chamado a tenção, nesta comparação entre educação e cultura, para além da semelhança na inépcia dos governantes na ação, é que muito em breve os museus serão chamados a procurar justificar a sua existência perante a sociedade que está em mudança.

Estão pois perante o desafio de criar a sua autonomia.

XXIX- Vermelho e Negro

Qual a probabilidade de um dia alguém, desconhecido, lhe oferecer um Ramo de cravos vermelhos.

Pequena suponho. Mas nao impossível. O pagamento duma promessa. Um desafio de amigos. Um desejo de fazer algo de irreverente.

O que quer que seja é um gesto altruísta, capaz de mudar mundos.

Aconteceu em maio em Portugal. Num outro ano, em 1974 foi símbolo da revolução. Hoje e simbolo dr autonomia.

XXVIII– Arte da Xávega

Quando um marinheiro aporta a um porto seguro, regressado das aventuras em mares tropicais, reencontra memórias. São duas linhas que se voltam a cruzar. Linha que tiveram dinâmicas diferentes, independentes, que seguiram linhas e lógicas próprias, reconstruindo as suas memórias.

Ao longo do dia de ontem, duas histórias relacionadas com estas velhas histórias, regressaram à memória.

A primeira foi vivida na Caparica, o esplendoroso areal às portas de Lisboa, que ao longo dos anos se foi transformados de aldeia de pescadores, para área balnear e área de dormitório da margem sul.

Ao longo da juventude foi porto seguro das férias de verão familiares. Com os primeiros calores de junho, passados a época dos santos populares vividos em Lisboa, uma velha camioneta de caixa aberta chegava pela manhã. Era dia de azáfama lá por casa. Aos poucos, colchões e roupas de cama emaladas e carregadas. Alguns tachos, panelas, pratos e talheres encaixotados, enviados para a casa de verão, alugas ao ano no início, depois ao mês. A família aí aportava a banhos até ao mês de setembro, com o chefe da família a fazer viagens diárias, de autocarro entre Cacilhas a Costa da Caparica, pois era época onde o luxo das férias ainda não era universal.

Havia rotinas que se mantinham, como a ida à praia da parte da manhã, a visita aos familiares com banca no mercado, para abastecimento de víveres. Da parte da tarde uma sesta e uma saída para a “mata”, onde se encontrava alguns amigos, se liam livros comprados na papelaria local (nessa altura andava a ler a coleção dos “Sete”. Mas os momentos que me eram mais agradáveis eram as visitas aos “Mouras”, uma velha família que veraneava numa casa em cima do areal. Implicava por isso levar os calções de banho e por aí ficávamos até ao por do sol.

O Por do sol na Caparica é um momento sagrado do dia. O momento em que o astro rei caia sobre o horizonte, inundando tudo de raios dourados e deixando o mar da cor da prata.

Também por essa hora caíam sobre o areal os pescadores da arte da Xávega. Com os seus barcos de peixes desenhados nas proas. Redes de tresmalho com saco. Sempre agasalhados para suportar a friagem que pela noite se faz sentir. E o final da safra, as sardinhas a saltarem, prateadas. Por vezes, suponho que seria aos sábados, comprávamos uma caixa ali na praia e levavam-se para casa e assavam-se nas brasas de carvão.

Nesse tempo não era grande admirador de sardinhas, mas gostava daquele ritual de praia e, com qualquer criança, de brincar sem horas na praia até que a escuridão tomasse conta das dunas.

Anos mais tarde, já jovem adulto, em visita à tia com banca no mercado, fui desafiado a “fazer qualquer coisas pela vida”, que é como essa minha velha tia, de nome Adelaide, casada com um pescador astuto que me recordo de olho azul e rosto tisnado pelo sol, dava ao “trabalho”.

Lá aceitei o desafio e durante uma safra, lá e dediquei à arte da xávega. Instalei-me na costa da Caparica. Ao final da tarde concentrávamo-nos no “bairro dos Pescadores” com uma merenda para aplacar a fome, caso ela viesse, pois antes não se saía de casa sem um bom prato de sopa “à pescador”. Depois íamos em cima duma camionete de carga até à Fonte da Telha, onde o mestre e o arrais tinham idos fazer a sesta pela tarde, para observar o mar, escolher o ponto de saía e marcar o lugar. Em regra o barco estava pelas imediações, pois cada “arte” tinha, por assim dizer, um dado território de pesca. Um direito que era sinalizado com a presença do arrais na praia, que dava a indicação da intenção da saír dum determinado ponto, onde a experiencia e a intuição indicavam maior probabilidade de extrair uma boa pescaria.

A “companha” era constituída por cerca de uma vintena de homens e mulheres que dividiam a pescaria em partes. O patraão e o arrais tinham uma parte pelo barco e pelas redes, outra parte para o trator e para a camioneta que levava o pessoal e o peixe para a lota. Cada remador tinha também uma parte. Quem ficava em terra a alar as redes tinha meias parte. Foi isso que me cabia de início, até ser considerado capaz de remar.

E assim passei vários meses. Ganhava-se conforme a pescaria. Uma vezes bastante, outras vezes, pouco mais dada do que trazer algum peixe para casa para o dia seguinte, o que também faziam parte do pagamento, em regras retirado das ultimas caixas, que não iam à lota.

E assim fui pescador de arte da xávega durante um ano!